Comer, Comemorar e Comer

Desde sempre, em qualquer país, qualquer religião, etnia, condição social, política ou time de futebol, celebra-se qualquer coisa ao redor de pratos de comida. Seja por motivos religiosos, conquistas esportivas, negócios ou datas especiais, quando queremos comemorar a primeira coisa que vem à cabeça é: “Tudo bem, mas vamos comer o quê?”. Tem também a versão etílica que, mesmo não sendo uma comemoração menor, quase sempre acaba com uma pergunta parecida: “E aí, o que vamos comer para acompanhar?”

Historiadores explicam que isso de celebrar comendo vem dos sacrifícios de animais nas festas religiosas da antiguidade. É que como não eram bichos pequenos, para comê-los frescos era preciso comê-los já. Então chamavam-se os amigos e vizinhos para dividir a refeição que acabava virando uma festa. Hoje em dia celebrar em volta de uma mesa é uma coisa tão natural que até as cadeias de fast-food têm suas salas privês para comemorar e comer rapidinho.

Nossas celebrações já não precisam mais ser precedidas de um abate no quintal de casa, mas a tradição de juntar pessoas para festejar dividindo uma refeição só fez crescer. Empresas celebram bons negócios comendo, equipes esportivas suas conquistas segurando o troféu numa mão e um garfo na outra e nas festas de casamento, o que é mais comentado depois da noiva é em geral a comida servida.

Mas alguns subvertem a ordem de comer para celebrar:

- Olha só, vou fazer um risotinho de funghi lá em casa hoje. Você e a Mônica não querem aparecer?
- É por algum motivo especial?
- Claro! Descobri na feira um funghi delicioso que só tinha visto na Itália. Isso não é motivo para comemorar?
- Sem dúvida! Levo um branco ou um tinto?

Pois é, esses aí transformaram a própria refeição num motivo de celebração. E vão comer exatamente o homenageado.

Comer para celebrar é tão óbvio que pratos doces e salgados são especial e tradicionalmente criados para essas datas festivas. Páscoa, Ação de Graças, Rosh Hashaná e Natal são alguns momentos que por costume celebra-se à mesa com perus, peixes e rabanadas. Em países com mais tradição nesse sincretismo gastro-religioso, cada dia de um Santo tem seu bolo, biscoito ou torta específicos. Garanto que tem gente que fica esperando o dia de Santa Filomena por que é o único do ano para comer uma tal torta de amêndoas com mel deliciosa.

- Bom, hoje é Santa Filomena, terça que vem São Brás e no fim do mês Santo Onofre de Cracóvia.
- Nossa, você é devota desses Santos todos?
- Devota nada, estou é preocupada. Esses Santos todos vão acabar com o meu regime!

O que em geral acontece é que por mais distintas que possam ser as pessoas e por mais tradicionais ou oportunistas que venham a ser as datas festivas e feriados, nesses dias estaremos com um copo e um garfo nas mãos em volta de uma mesa, dispostos a esquecer diferenças em troca de um belo prato.

Comer para celebrar ou celebrar para comer, não importa. O importante é que na comemoração qualquer motivação seja respeitada, diferenças temperem ainda melhor o momento e que ao final todos se levantem perguntando: “E aí, quando é a próxima?”

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