Calçotada!

Como diz claramente a descrição desse meu blog, acho que comer e cozinhar da maneira que eu vejo e pratico, deve ser acima de tudo uma grande diversão, se ficar muito sério estraga. Mas dessa vez eu abusei. Uma calçotada tem doses idênticas de diversão e boa comida.

Calçot é um bulbo como a cebola, típico de uma pequena região da Catalunya, plantado e consumido entre novembro e abril. Sua aparência é de uma cebolinha que cresceu até o tamanho de um alho-poró mas sem anabolizantes. O cultivo dá um certo trabalho, pois à medida que a planta vai crescendo, ela tem que ir sendo coberta com terra para evitar que pegue luz.O produto final é, portanto, uma cebolinha crescida com uma grande parte branca e carnuda e folhas verdes na parte de cima.
Esse calçot, depois de colhido e lavado, vai para uma grelha baixa de carvão em brasa e é deixado lá até que a parte de fora fique queimada, negra. São então amarrados em grupos de vinte ou trinta calçots e enrolados em folhas de jornal para que cozinhem no seu próprio calor até a hora de comer. Quando esses pacotes são abertos é que começa a calçotada.

É definitivamente um dos eventos mais simples, saborosos e divertidos que eu já fui. O mais incrível é que não usamos pratos, copos, nem talheres e comemos uma coisa só: calçots, muitos calçots. Para quem já gosta de pratos de uma panela só como eu, é o supra-sumo da simplicidade: nem prato, nem panela.

As mesas ao ar livre são forradas com toalhas de papel seguras por porrons - garrafas de vidro feitas para serem viradas diretamente na boca - cheias de vinho produzido pela cooperativa local. Ao lado do vinho ficam potinhos com o molho romesco que acompanha os calçots e pilhas de guardanapos de papel. Dividindo a mesa a espaços regulares, estão telhas de barro bem velhas. Cadeiras não há. O dia frio, com o sol de fim de inverno dá o tom do ambiente.

Babador amarrado no pescoço, peguei o primeiro calçot do pacote que foi aberto e colocado dentro de uma das telhas. Ainda bem quente, aprendi a tirar a camada negra de pele queimada até aparecer seu interior branco e macio. Para comê-lo é necessário se colocar na posição filhote-de-passarinho-sendo-alimentado-no-ninho-pela-mãe, com o rosto virado para cima e a boca aberta, daí a necessidade do babador. Dá para imaginar a cena: um bando de senhores e senhoras de babador verde com a boca aberta para o alto comendo com as mãos negras de fuligem um negócio parecido com um alho-poró que cozinhou demais. Fellini perde.


O sabor suave dos calçots lembra de longe o da cebola, mas acompanhado pelo gosto que sua pele queimada deixa e pelo molho levemente apimentado, se torna único e completamente diferente de qualquer outra coisa. Passamos quase uma hora nisso, sujando as mãos, abrindo a boca para o alto e engolindo telhas e telhas de calçots e muito vinho. Aliás, o babador verde tem também outra função: proteger a roupa do vinho tomado diretamente do porron, num fio de bebida que desenha um arco no ar, da garrafa levantada acima da cabeça até a sua boca. Exige alguma técnica e muito treinamento.

O ambiente de comunhão é evidente. Amigos de pé ao redor de uma mesa pegando a comida do mesmo lugar e bebendo vinho de uma garrafa que passa pelas mãos sujas de todos, mostra que o prazer na mesa não depende de qualquer sofisticação, produção mais elaborada ou frescuras como pratos, copos e talheres.

Uma calçotada é mais que uma refeição, parece mesmo a um ritual onde a comida tem papel tão importante quanto o ambiente, as pessoas e a intenção indiferente de comer bem se divertindo muito ou se divertir comendo muito bem.

Comentários

PF disse…
Grande Paco!
Nós 4 ainda iremos participar de uma calçotada juntos... Lembro muito bem do calçots q comemos no El Glop em 2000. Maravilha!

Abraço,
PF
Calamar disse…
Calçots i vi amb porró, al Brasil...!!

Quina sorpresa!

Salutacions,

Eduard
Anônimo disse…
eu Amooooooooooooooooo CALÇOTADA!
gostaria de saber se existe algum lugar no Brasil, especialmente em Sao Paulo que eu possa comer essa deliciosa iguaria!

bjs Heloisa
Jorge disse…
Eu nâo sei realmente a história da calçotada, mas faz 20 ou 30 anos aqui na Espanha ninguém conhecia, ou estava restringida a um pueblo da Catalunha. Agora esta superpopular, todo mundo vai comer calçotada, quando é a época. E isso é porque existem publicrelations aqui pra tudo, para uma denominaçâo de origem, para um vinho, uma festa local, até para um feijâo! Ou seja, um produto, por mais bom que seja, precisa divulgaçâo. É isso o que a gente no Brasil tem de prestar atençâo.

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