Dois restaurantes

Nós aqui desse blog somos meio ranzinzas, reconheço. Detestamos frescuras gratuitas, empulhações descaradas e invenções inúteis nos nossos pratos e copos. Acreditamos que comer e beber bem é muito mais simples do que alguns restaurantes, revistas, críticos e chefs insistem em nos fazer crer. Em geral reclamamos bastante, basta ler aqui, aqui e aqui. Mas hoje é dia de trégua, dia de mostrar que também temos coração e nele há espaço para lugares aos quais, pelo menos eu, desde sempre só tenho elogios.
Sou um cara tão fiel que quando como fora, em restaurantes que fique bem entendido, cumpro com essa convicção quase plenamente. Às vezes eu pulo o muro, faz parte, mas em geral quando saio para comer, sempre vou a cinco ou seis restaurantes onde sei que não vai ter erro. É de dois desses lugares que quero falar hoje, e bem.
Ambos têm perfis bastante diferentes, mas com um ponto em comum que em minha opinião faz a diferença. Eles são fiéis a um conceito, ao seu público e principalmente a eles mesmos.
O Gula Gula e o Luigi’s estão longe de serem considerados restaurantes gastronômicos, o primeiro ficou conhecido pelas suas saladas e o segundo me conquistou pela consistência do seu menu. Freqüento o Gula desde que o Fernandão pilotava a cozinha na lojinha no Leblon lá nos idos de 1986. Devo ter sido uma das primeiras cobaias da salada de batata frita que como até hoje. Acompanhei sua transformação em uma cadeia de restaurantes que servem quase um mesmo cardápio nas suas onze casas. Cardápio este que foi se transformando e crescendo dentro de um conceito muito claro nesses vinte anos. Me lembro perfeitamente de sentar saudoso no Gulinha depois de uma reforma que durou um tempão, e ver que tinham incluído os grelhados ao lado de velhas e novas saladas. Uma evolução absolutamente natural e perfeitamente dentro do que nós poderíamos esperar dele. Hoje, o cardápio tem vários pratos dos antigos ao lado de novidades que são como seus primos-irmãos, numa unidade e coerência evidentes que só quem sabe como chegaram até aquele ponto, percebe o seu valor completamente.
O Luigi’s em Laranjeiras é bem diferente. De fora você não dá nada, é uma casa antiga onde foi feita uma reforma meia-boca e que de vez em quando é pintada com cores de gosto tão duvidoso quanto os quadros da decoração. Mas apesar disso ele está no mesmo lugar há quinze anos. Comecei a freqüentá-lo quando o dono ainda saía da cozinha para atender as mesas. Hoje, o Alessandro Cucco é um dos mais conceituados cozinheiros do Rio onde tem outro restaurante, a Osteria del Angolo, considerado dos melhores italianos da cidade. No Luigi’s é difícil escolher o que comer. Das massas que parecem ter saído daquele livro da nonna ao pato ou filé, tem um cardápio que eu poderia comer sem repetir durante muito tempo. Mas como sou fiel, acabo comendo sempre os mesmos dois ou três pratos.
No Gula como sempre o carpaccio, a salada de batata frita com uma torta de cebola e o paillard com fettuccine. A sobremesa é um daqueles clássicos que nasceram quase sem querer e se multiplicaram; torta mousse de chocolate quente com sorvete de creme. Para não dizer que lá são só flores, lamento que eles não sirvam mais a torta de coco que eu gostava tanto. Vai ver eu era o único.
Quando vou ao Luigi’s ainda olho o cardápio para ver se me animo, mas gosto tanto do filé com pimenta verde e batatas no alecrim e do capeletti aos quatro queijos e nozes que depois da bruschetta com alho, orégano e azeite não penso em comer nada diferente. A sobremesa é sempre uma mousse de dois chocolates, simples e deliciosa para dividir. A casa é famosa também pelas pizzas, mas ainda não consegui chegar lá.
Nos dois, as caipirinhas são ótimas, a cerveja pode vir num baldinho com gelo e no Gula tem uma carta de vinhos, basicamente do novo mundo, também em taças e em meias garrafas, coisa rara hoje em dia.
São restaurantes onde um casal pode comer bem por algo em torno dos cem reais e que têm uma clientela cativada não só pela comida, mas também pela transparência, franqueza e firmeza com que evoluíram ao lado dos seus clientes, mantendo aqueles valores e sabores que os fazem estar vivos e crescer e que nos fazem voltar sempre lá. Vida longa a vocês dois.

Luigi's
Rua Senador Corrêa ,10 - Laranjeiras
Telefones: (21) 2205.5331 e (21) 2205.7343 ( fecha seg.)

Comentários

Roberta Malta disse…
Também como a salada de batata frita desde que abriu o Gula do Leblon ( mas eu era bem pequenininha, hein? hehehe). E tb desde sempre fui louca por aquela batata recheada com requeijão, divina!

Agora, o Luigi's era do Alessandro Cucco??? Podia morrer sem saber.
eduardo lima disse…
O que faz um restaurante são as pessoas que ficam de pé, não as que estão sentadas. Ou seja, aquelas que não saem de graça em colunas de anselmos. Por isso, como conheço bem o Gula Gula, preciso com urgência conhecer o Luigi´s. Lá, serei amigo do Paco!

Abs.

Quanto ao Zeta, qualquer dia levo uma garrafa aí ao bistrô. Quanto cobras pela rolha?
Paco Torras disse…
Renata, acho que o Cucco ainda é dono do Luigi's. Pelo menso outro dia ele estava lá. Ele teve também outro restaurante, o Marco Polo no Leblon, que era ótimo e não sei porque durou tão pouco. Era uma mistura de Luigi com Osteria. Tinha um alho assado no couvert delicioso e ostras sempre frescas.
Eduardo, a rolha está mais do que paga com seus textos...
Julia C.Roberts disse…
Concordo totalmente.
Adoro ambos e sempre me sinto em casa!
Gabriel disse…
O Gula Gula é uma verdadeira instituição carioca. E é uma maravilha ver o crescimento de uma marca sem que ela perca sua identidade. Sou fã de carteirinha. Sobre o Marco Polo, acho que o restaurante acabou porque o Alessandro era sócio de um chef francês, ex-Le Saint Honoré, que acabou falecendo ainda muito jovem. Diante disso, não tinha como continuar com o restaurante. O ponto passou para a Devassa e por isso o Alessandro é um dos sócios da casa. Desculpem, falei demais.
Roberta Malta disse…
Renata ou Roberta? Tá parecendo uma amiga nossa (tb blogueira e que eu adoro!)...Um doce se vc adivinhar quem é!
beijão.
Paco Torras disse…
Roberta, Roberta, Roberta. Sorry, não esqueço mais. Nem posso, temm tão pouca gente aqui....Viu como o Alessandro tem histórias? A orelha dele deve estar ardendo.
Roberta Malta disse…
Eu vi, não sabia nada disso.
Esse alho assado é incrível, tb tem no couvert do D.O.M. do Alex Atala e no Mocotó,um pé sujo imperdível em São Paulo ( Segundo Laurent o melhor restaurante da cidade. Em sexto lugar o Parigi do grupo Fasano. hahahahaha, não é ótimo?).
Fugu F. disse…
Vou muito tanto ao Luigi quanto à Osteria e ao Gula Gula. Uma das deficiências do Luigi era a falta de opções de vinhos, mas isso já está melhorando. A comida lá é sempre ótima mesmo. Só lamento a saída do zabaione da lista de sobremesas. Mas o tiramisú continua imbatível.
PF disse…
Paco,
Pena ter visto seu post só agora, quase 2 semanas depois da publicação...
O Gula é um clássico carioca e deveria entrar na lista das maravilhas da cidade, junto com o Pão de Açucar, o Corcovado, a Lagoa, etc.
E é uma religião! Como vc sabe, desde que mudamos para São Paulo, qualquer viagem que fazemos para o Rio NECESSARIAMENTE inclui uma visita ao Gula. Coisa q fazemos geralmente na companhia do casal Torras!
Outra coisa que me impressiona no Gula foi o fato de ter aberto em São Paulo e não ter dado certo. Não dá prá entender pois não tem nada parecido por aqui.
Quanto ao Luigi's só fui uma vez, deve ter quase uns 10 anos. Mas me recordo perfeitamente que foi a única vez em que comi um molho pesto tão bom quanto o preparado pela Mia.
Este post também me lembrou outros restaurantes que comecei a frequentar por volta de 86: o Alface's, o Filet & Folhas e o Entrecote. Lembra?? Infelizmente já fecharam...
Abraços,
PF

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