Pão perdido

No natal da nossa família, as rabanadas feitas pela minha bisavó competiam de igual para igual com os presentes em matéria de expectativa. Sua chegada era ansiosamente aguardada na ceia do dia vinte e quatro. As crianças funcionavam como batedores, anunciando a entrada triunfal das rabanadas trazidas pela bisa que, pobrezinha, achava que aquilo tudo era para ela quando na verdade era para o que ela trazia numa bandeja.
Não vou dizer que a gente comia rápido o peru e o bacalhau da ceia, mas havia certa agitação que desaparecia magicamente depois da primeira garfada na rabanada.
Não vou dizer que a gente comia rápido o peru e o bacalhau da ceia, mas havia certa agitação que desaparecia magicamente depois da primeira garfada na rabanada.
Em 1988 não foi diferente, a bisa entrou pela sala com a bandeja na mão seguida por olhares que salivavam. Mas quando chegou a hora da sobremesa, a agitação normal só fez aumentar. Gente zanzava de um lado para o outro olhando por todos os cantos como se estivessem procurando alguma coisa. Cochichavam no ouvido da bisa, iam e vinham como baratas tontas. O movimento durou uns intermináveis quinze minutos até que minha mãe, de pé no meio da sala, anunciou:
- Gente, más notícias.
- Xiiiiiii.....
- As rabanadas da bisa sumiram!
- Ohhhhhhh!
- Pois é, já procuramos na casa toda e nada de rabanada.
-Uhhhhh....
- Xiiiiiii.....
- As rabanadas da bisa sumiram!
- Ohhhhhhh!
- Pois é, já procuramos na casa toda e nada de rabanada.
-Uhhhhh....
Chegamos a questionar se a bisa tinha mesmo entrado com as rabanadas ou se aquela era uma visão tão enraizada na memória que nem percebemos que ela estava de mãos abanando. Ela dizia ter certeza que tinha trazido, enquanto outras pessoas podiam assegurar que dessa vez tinha se esquecido.
Enfim, entre resignados e decepcionados, terminamos a ceia, trocamos os presentes e, aceitando o esquecimento da bisa, coitada, encerramos a festa dizendo que no ano seguinte alguém tinha que ajudá-la a não se esquecer das suas famosas rabanadas.
Mas se a bisa tinha algum defeito, não era a memória fraca.
Mas se a bisa tinha algum defeito, não era a memória fraca.
Dias se passaram. Papai Noel já tinha voltado para sua casa no Pólo Norte, enquanto nós aqui, fazíamos as inevitáveis arrumações pós-natal. No quarto dos fundos, tentando achar espaço para organizar aquelas coisas que você guarda mesmo sabendo que nunca vai usar, jogamos no chão um monte de almofadas que estavam em cima do sofá. Surgiu então um pacote largo e chato de papel alumínio todo amassado. Nos entreolhamos já segurando a gargalhada e gritamos ao mesmo tempo:
- As rabanadas da bisa!!
Pois lá estavam elas, todas amarfanhadas em um bolo só, tadinhas, com o açúcar escorrendo na bandeja e sem nenhuma faísca daquele brilho suculento da juventude. Ainda tivemos uma esperança fugaz de que estivessem comíveis, só para resolver a secura do Natal, mas não dava. Foram para o lixo junto com os muitos cacarecos daquele ano. Ligamos para a bisa:
- Bisa, encontramos as rabanadas aqui no quarto dos fundos! – Eu tinha que falar alto para ela escutar.
- Bem que eu disse que elas estavam perdidas por aí. E vocês pensando que eu estou gagá! – Ela ria da gente.
- Pois é, bisa. Este ano ficamos sem, não deu nem para provar um pedacinho.
- Vocês é que ficaram sem. Eu tinha guardado meia dúzia aqui. Estavam deliciosas.
- Como sempre né, bisa?
- É.
- Bem que eu disse que elas estavam perdidas por aí. E vocês pensando que eu estou gagá! – Ela ria da gente.
- Pois é, bisa. Este ano ficamos sem, não deu nem para provar um pedacinho.
- Vocês é que ficaram sem. Eu tinha guardado meia dúzia aqui. Estavam deliciosas.
- Como sempre né, bisa?
- É.
Nunca descobrimos como as rabanadas foram parar sob um monte de almofadas no quarto dos fundos nem como ninguém as encontrou no dia de natal, mas, desde estão todos os anos nossas rabanadas são monitoradas a partir do momento exato em que entram na panela. Afinal, se a memória da bisa já não está mais aqui para garantir nossa ceia, as rabanadas dela sim.
Feliz Natal!
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3 Comments:
Que lindo... Tô até emocionada, não dá nem pra comentar. Feliz Natal procês também! beijo.
Paco,a-do-ro rabanada. Você reparou,lá no blog da Luciana, que as rabanadas são dominio das avós, mães e sogras? Pelo visto a nova geração...nada, né? :) Mas mudando de assunto, o stollen,que você perguntou, é o tradicional pão de Natal alemão, cujo formato lembra o Menino Jesus envolvido por suas mantas. Segundo diversos registros, a receita original foi criada em torno de 1400, em Dresden, onde todo ano, nesta época, acontece o “festival do stollen” (http://www.stollenfest.com/). Sua massa é fermentada e contém manteiga, mas o que dá um toque especial são as passas, frutas cristalizadas, as nozes e as amêndoas. O acabamento é com glaçúcar (no google tem várias receitas). Aqui no Brasil, já é vendido no supermercado, mas acho que entre os nacionais, o melhor deve ser o do Kurt. Maiores informações e fotos, ver a wikipedia (http://en.wikipedia.org/wiki/Stollen) :: Nos falamos, Bjs!
Belo texto Paco.
Bom Natal aí pra voce!
Abraços
JB
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