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24.11.16

Verdes, jovens e maduros

Como todo mundo que compra vinho em supermercado deve ter percebido, de uns anos prá cá houve um aumento significativo na oferta de bons vinhos portugueses a bons preços. As razões podem ser várias, desde a crise na Europa até a melhora na percepção de que vinho português pop pode ser mais do que Dão, Periquita e Mateus. Essa percepção vem sendo (re)construída pelos produtores e importadores, talvez por necessidade, e nós saímos ganhando com isso. Eu já dei a largada.
Nunca entendi por que o brasileiro, e o carioca em especial, nunca foi ávido consumidor de vinhos verdes portugueses. Desconfio que é por causa do péssimo nome dessa denominação de origem que remete, para nós, a um produto que não está pronto, não está maduro. Uma pena, pois tratam-se de vinhos que são tão bons para nosso clima que até a Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes percebeu isso e está promovendo sua divulgação por aqui.  Outro dia provei sete deles e saí inebriado com a versatilidade e frescor desse vinho que tem tudo para dar muito certo com os cariocas e sua gastronomia.
O primeiro foi um QM Alvarinho 2015 pouco seco e sem muito daquele pique que a gente tem na memória desses vinhos do Minho. Vinho simples e leve, sem grandes pretensões. Seguimos com um Quinta de Linhares 2014 com muito mais corpo e sem nenhuma nesga de mar tão comum nos verdes. Importado pela Premium chega aqui por um preço final tão bom que poderia estar em qualquer restaurante ou bar português da cidade representando com dignidade os vinhos da terrinha.
Um dos melhores vinhos da tarde foi o Aphros Daphne Loureiro 2011 que apesar do nome difícil é muito fácil de beber e que no primeiro gole pode passar até por um riesling antes de aparecer toda sua mineralidade. A Wine Lovers vende aqui.
O vinho mais próximo de um alvarinho tradicional, pelo menos na minha boca, foi o Ponte de Lima 2015, também de Loureiro, seco, cítrico e vivo como eu gosto. Pena que ninguém ainda traz ele prá cá. O Quinta do Regueiro 2012 que provamos depois é um vinho extremamente versátil, com corpo, acidez e nariz que confirmam que de verde só o nome. Vinho jovem, mas pronto e acabado que a Winemundi importa. Não perca a conta, faltam ainda duas garrafas.
A essa altura eu estava pensando que o Minho só é bom produzindo vinhos jovens e sem poder de guarda, quando a Gabriela apresenta o Portal do Fidalgo 2006. Kapow! Que vinho. Com 13,2% foi mais alcoólico e o melhor verde que provamos. Sem passar por madeira, manteve nesses dez anos todo o frescor dos jovens e ganhou uma complexidade que é ampliada depois de alguns minutos no copo. A Casa Flora tem o 2013 se você tiver paciência para guardar.
Para finalizar o evento na Bottega del Vino, além da companhia do Dionísio Chaves, um dos mais importantes sommeliers do Brasil e dono da casa, a sobremesa foi acompanhada por um espumante Via Latina Rosé 2015 que não faz muito meu tipo. Sem contar o péssimo nome, morango e tutti-frutti não são os aromas e sabores que me fazem felizes num vinho.

Evento mais do que bacana não só para conhecer novos vinhos, mas para confirmar minha percepção sobre portugueses acessíveis depois do tapa na cara que levei provando um Quinta do Cidrô, chardonnay do Douro que está na carta do Bazzar desde sua abertura, há dezoito anos. Definitivamente cariocas precisam amadurecer e conhecer melhor os verdes portugueses.

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6.11.13

O melhor branco nacional

Das melhores coisas da vida é compartilhar com amigos as melhores coisas da vida. É, ou não é? E não estou falando de Facebook, por favor!
E quando um amigo encontra não só um vinho novo, mas uma vinícola inteira e não descansa enquanto não toma umas garrafas com você? Não é sensacional?
Pois o Gustavo Mansur, habitué aqui do Bistrozinho, não descansou enquanto não dividiu comigo os vinhos da Viapiana, jovem vinícola gaúcha que é sua atual brasileira favorita.
Começou num jantar aqui em casa onde ele trouxe uma garrafa do Via 1986, ano de fundação da vinícola, 100% Marselan – uva desconhecida para mim – safra 2009. Um vinho diferente de qualquer outro nacional que eu já tomei. 
Não só pelo teor alcoólico de apenas 12.8° num mundo onde 14° parece que virou padrão entre os tintos. 1.2° faz uma diferença danada, mas também por aquela acidez e picância que muitas vinícolas nacionais parecem ter medo de oferecer nos seus vinhos. Show de tinto. Mas a história com a Viapiana estava apenas começando bem.
Semanas depois a vinícola baixou no ótimo Bistrô do Ouvidor, no centro do Rio numa degustação harmonizada que encheu o salão em pleno sábado à tarde.
Começamos com o espumante Brut 192 que é o número de dias em que o vinho fica em contato com as leveduras. Vinho correto, seco no ponto, ótimas borbulhas para abrir os trabalhos. 1986, 192....a fixação da vinícola por números ainda não terminou.
A entrada foi um linguado recheado de camarão no gengibre que apesar de delicioso, quase não aguentou a personalidade do branco servido.
O Expressões Chardonnay 2011 é simplesmente o melhor branco nacional que já provei. De longe. Seco, encorpado e aromático como um jerez depois de nove meses no carvalho francês, suave e rico como se espera de um bom Chardonnay e leve, apenas 12° de teor alcoólico. Queixo caído. 
Entre um prato e outro provamos um lançamento, o espumante 575 (agora chega de números, juro) que deixa a maioria dos nacionais no chinelo. Ficou perfeito com o funghi porcini com ovo de codorna pochê e trufas brancas Que o restaurante preparou para acompanhar.
Mas não tem tinto nessa vinícola?
Aí veio o Merlot Expressões 2011 acompanhando um cordeiro com batatas ao alecrim. Mesmo com a boca maravilhada pelos brancos, esse tinto brilhou com seus 13° e o equilíbrio entre leveza,  tanino e madeira. Um vinho clássico mas, de novo, acima da média dos equivalentes nacionais.
Ainda tivemos um mil-folhas de frutas vermelhas com o demi-sec da casa para arrematar.

Que bom que a Viapiana busca fazer um vinho diferente daqueles que a gente está acostumado a beber por aqui. Vamos combinar que ultimamente as novidades não tem sido tão novas assim, não é? Vinho nacional com mais de 14° e muito tanino está cheio por aí. Brancos exageradamente frutados "por que o mercado pede" também. Será que pede mesmo?
Que bom que a gente tem um lugar como o Bistrô Ouvidor se propondo a apresentar esses novos vinhos aos cariocas.
Mas que bom mesmo é que temos amigos que não descansam enquanto não compartilham conosco uma mesa, um copo e aquilo que gostam de comer e beber. Além da foto no Instagram, claro.

Viapiana
Travessão Alfredo Chaves, s/nº
Flores da Cunha - RS
Fone: 54 3297-5144
viapiana@vinhosviapiana.com.br


Bistrô Ouvidor
Rua do Ouvidor, 52
Centro, Rio, RJ
Fone: 21 2509-5883
bistroouvidor@gmail.com

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2.5.13

Restaurantes e vinhos: a rolha é o que nos resta


- por Gustavo Mansur

A ídeia inicial é sempre mais ou menos a mesma quando entro em um restaurante de São Paulo ou Rio de Janeiro, comida pede um bom vinho. Só que ao abrir a carta de vinhos entregue pelo garçom vem a decepção.
A lista é de vinhos apenas regulares, daqueles que normalmente os especialistas costumam recomendar para o "dia a dia". São aqueles rótulos que se encontra nas prateleiras de média altura do supermercado ou no fim da lista das importadoras. Já os preços não são nada regulares, normalmente abusivos. O normal é encontrar o valor 100% acima do que seria pago em um supermercado ou loja especializada.
E não adianta tentar encontrar a melhor relação custo/benefício, ainda assim o preço vai ser tão alto para o que vale a garrafa que eu acabo pedindo um suco ou ficando só na água mesmo.
Não consegui ainda entender se tudo começa com a ganância pura e simples dos proprietários dos restaurantes ou se realmente existe uma matemática louca que torna o preço dos vinhos tão altos. Mas considerando que existem exceções, raras mas elas existem, só consigo concluir que são os proprietários que se aproveitam da falta de conhecimento geral dos consumidores sobre vinhos e martelam no preço. E para os que possuem algum conhecimento de vinhos e dos preços de mercado qualquer carta acaba parecendo sempre um assalto.
O resultado é que a prática da rolha deixou de ser uma extravagância para se tornar algo corriqueiro. Pelo menos para mim a rolha começou a valer muito mais do que beber algum vinho regular com preço nas alturas. O custo da rolha nos restaurantes de São Paulo que frequentei nos últimos meses fica sempre em torno de R$ 40,00. Em uma situação extrema lembro de ter pago R$ 60 pela rolha. Mas já vi restaurantes que cobram até R$ 95,00 o que claramente é um abuso, mas mesmo assim ainda pode ser compensador. O bom senso é o estabelecimento cobrar o valor do vinho mais barato da carta. Mas como não existe regulamentação alguma, alguns restaurantes valorizam a rolha como uma forma de coibir a prática.
Pra mim a solução ficou viável sempre seguindo alguns cuidados básicos. O primeiro e principal é sempre ligar antes para o restaurante e confirmar que eles aceitam o seu vinho. As vezes pelo telefone você já consegue perceber se vai ser bem bem recebido no local. Já vi muito maitre me olhar torto quando chego com vinho na mão.
Nunca levo para o restaurante um vinho comum, que possa mesmo remotamente estar na carta do lugar. Se você vai levar um vinho, escolha aquele que trouxe de uma viagem ou algo que seja um pouco mais raro e fora da lista padrão que as importadoras mandam para os restaurantes. Se você prestar um pouco de atenção nas cartas de vinho vai perceber que elas seguem um padrão e os vinhos se repetem bastante. Passar no supermercado e comprar um vinho antes de ir para o jantar então, nem pensar.
Outro ponto que faz diferença é chegar com o vinho na temperatura em que ele será servido. Evita a chateação de convencer o sujeito a esfriar o vinho para você.
Para não bancar o enochato, eu evito levar vinho quando estou saindo com amigos com quem não tenho tanta intimidade. E mesmo para os que tenho costumo avisar antes que vou oferecer uma garrafa especial ou diferente. Não pega bem chegar já impondo seu gosto. Se quer beber um bom vinho em um bom restaurante com amigos tente indicar algum lugar que conhece e sabe que tem uma carta de vinhos honesta e variada.
Se eventualmente o restaurante tiver um sommelier e se ele se mostrar amigável ofereça a ele a oportunidade de provar o vinho que você levou. Você vai perceber se ele se mostrar interessado e perguntar sobre o seu vinho. Fique tranqüilo pois o sujeito não vai encher uma taça até a boca. Normalmente ele vai apenas pegar uma taça de degustaçãoe servir uma pequena dose. Se o sommelier for dos bons pode até completar com informações sobre o que você está bebendo tornando a degustação mais divertida.
Lembro dos tempos em que levar vinho para restaurante era uma situação bizarra. Nas primeiras vezes que fiz isso me senti um pouco exótico mas aos poucos fui percebendo que os estabelecimentos já se habituaram com a prática. Sinal de que não estou sozinho e tem mais gente trazendo vinho de casa. Não estou seguro se foi o preço da rolha que ficou mais aceitável ou se o custo do vinho no restaurante é que ficou nas alturas. De qualquer forma faça as contas e você vai entender que vale a pena.

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17.4.13

Primeira Estrada, vinho de Minas - por Gustavo Mansur


O Bistrô recebe hoje como colaborador um de seus mais assíduos e queridos leitores. Bem-vindo Gus!

Uma nota no jornal O Globo de sábado chamou minha atenção.
Um grupo de brasileiros e franceses estava lançando o primeiro vinho da Vinícola Primeira Estrada feito no Sul de Minas. 
Curiosidade no meu caso sempre fala mais alto e foi o suficiente pra me levar até a Cobal do Leblon atrás de uma garrafa do dito vinho mineiro.
O preço de R$ 78,00 dá uma assustada pra um vinho nacional de uma região sem nenhuma tradição de produzir vinhos de qualidade. Conta meu pai que anos atrás era comum encontrar vinhos de mesa simples produzidos no Sul de Minas, mas agora o Primeira Estrada promete um outro padrão de vinho com um varietal Syrah.
O segredo da vinícola foi investir em uma técnica de inversão de ciclo. A maturação e colheita acontecem no outono e no inverno. O objetivo é permitir as uvas amadurecerem em um período do ano onde os dias são mais secos e ensolarados, fugindo das pesadas chuvas de verão.
Na Delly Gil da Cobal do Leblon um dos atendentes já parece acostumado com os curiosos atrás do vinho mineiro. "Vai provar pra ver se é bom mesmo?", me abordou sorrindo.
Botamos o vinho na adega e guardamos para o almoço do dia seguinte acompanhando um lombo com risoto.
Na primeira prova o Primeira Estrada Syrah 2010 parece escorregar um pouco na acidez que vai equilibrando aos poucos. Acho que uns 20 minutos no decanter teriam dado um bom resultado. Com alguns minutos na taça se descobre um vinho com bom frescor, equilibrado, sem grandes complexidades mas bem correto. Um final interessante de tostado que dá um charme. 
Certamente a relação custo/benefício ainda não compensa, mas o Primeira Estrada é uma prova definitiva de que o Sul de Minas tem potencial. Para um primeiro vinho a região começou muito bem. Tudo indica que tem futuro. Basta entender se o custo de produção consegue evoluir para algo mais adequado ao que o vinho entrega. A concorrência que já anda difícil com os hermanos chilenos e argentinos fica impossível neste caso. Mesmo comparando aos vinhos brasileiros não é difícil encontrar produtos com a mesma qualidade custando menos que os R$ 78,00.
A vinícola Primeira Estrada apostou bem na técnica de inverter o ciclo. Mas agora o desafio maior é tornar este vinho viável indo além do mercado de curiosos como eu. Mas pra quem gosta e torce pela indústria vitivinícola brasileira o Primeira Estrada é parada obrigatória.

Vinho: Primeira Estrada
Uva: Syrah
Safra: 2010
Produtor: Vinícola Primeira Estrada
Região: Sul de Minas
Onde foi comprado: Delly Gil, Cobal do Leblon (Rio de Janeiro)
Preço: R$ 78,00

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18.3.13

Raventós i Blanc no Bazzar

Ouvi dizer que agora tem uma moda de beber espumantes em taça de vinho borgonha, aquelas gordas. Idiotice dupla. 
Se o borgonha é bom, é bom até em copo americano, se o espumante é bom, não vai ficar melhor numa taça feita para vinho.... 
Esse foi um dos assuntos na degustação da Raventós i Blanc hoje no Bazzar: o nível de afetação na enogastronomia chegou ao insuportável. 
Para começar a degustação promovida pela Decanter provamos um cava L'Hereu Reserva 2008 bem honesto, suave, acima da média dos cavas que conhecemos por aqui, como era de se esperar de uma vinícola artesanal como a Raventós. Esse cava foi acompanhado pelo mais-que-famoso-e-meu-favorito carpaccio de pato com queijo de cabra do Bazzar. 
Depois nos foi servido uma das estrela do dia, o cava Brut Rose de Nit 2009, um rosé seco, isso mesmo, seco, nada mulherzinha, muito diferente do que estamos acostumados a provar por aqui. Uma cor rosada, nada daquele vermelho pirulito, que até engana o paladar pois o sabor é muito mais vivo do que sua coloração pálida. Esse foi acompanhado por um feijão de santarém com caju, tomate e broto de beterraba servido em uma taça de martini. Esse prato ficaria bom até em copo de papel.... 
O terceiro cava foi o melhor de todos, um La Finca 2006 - todos os cavas da Raventòs são safrados - que era um espetáculo. Altamente recomendado. Nariz rico, muito corpo e uma boca sem fim. Sensa. 
Antes dos vinhos e dos pratos principais provamos um Elisabet Raventós 2005 que não se mostrou tão rico como o anterior, embora seja o mais exclusivo produto da vinícola, ainda que fosse ótimo. É que a boca estava mal acostumada.
Mas até aqui foi só uma degustação de cavas.....ainda tinham o almoço e os vinhos.
O almoço em si começou com um bacalhau com azeite, alho confit e três pestos servido no copo - de vidro, claro - acompanhado do Silenci 2010, um branco picante, quase como um Albarinho, fresco, algo mineral, ácido, com algum corpo mas sem potência. Um vinho com muitos concorrentes e pouco diferencial. Depois comemos uma cavaquinha com purê de aipim e alho poró naquele padrão de excelência de sabor e criatividade do Bazzar. Foi quando bebemos outro branco beeeem mais importante, embora mais barato, o Perfum de Vi Blanc 2009. Esse sim com mais personalidade, corpo e perfume. Erá só o que faltava um vinho com esse nome não ter um belo nariz.
Ainda teve sobremesas e café, mas aí a gente já não dava para prestar mais muita atenção em nada como vocês podem perceber pela imagem acima.
Nas mesas ao lado, onde estavam ícones da enologia carioca, não sei qual foi o resultado se é que houve algum. Mas na minha opinião o bacalhau, o carpaccio, o rosé e o La Finca formaram o menu perfeito, com os cavas num patamar acima dos vinhos apresentados. Mas minha opinião é baseada em conhecimentos mais rasos do que uma taça de cava ou de vinho, seja borgonha, cabernet ou qualquer outra moda que venham a inventar.

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14.6.09

Dois restaurantes com vinho nos nomes

O Luiz Horta sempre diz do alto de sua sabedoria que é a comida que deve harmonizar com o vinho, não o contrário. Pelo menos aqui no Rio tem dono de restaurante que concorda tanto com ele que acaba colocando vinho no nome da sua casa. É o caso do Intervinos em São Conrado e do Le Vin em Ipanema que têm muito mais em comum do que apenas vinho no nome. Mas têm grandes diferenças também.

Além do vinho nos seus nomes, os dois restaurantes têm cardápios muito parecidos. Ambos oferecem o que se pode chamar de cozinha de bistrô, com aqueles pratos típicos dos restaurantes tradicionais franceses. Nos dois você encontra moule et frites, cassoulet, steak tartar, entrecôte com bernaise, confit e magret de canard além de outros pratos, onde cada casa busca se diferenciar, dentro dessa linha de simplicidade e qualidade que o bistrôzinho aqui preza tanto.

No Intervinos, o nome infeliz – para mim parece nome de importadora, não de bistrô francês – esconde um restaurante que foi a melhor surpresa dos último tempos. Apesar da localização ingrata, funciona onde por muito anos foi o Take, um dos japoneses pioneiros da cidade, a visita ao “outro lado” de São Conrado foi prá lá de compensadora. Sob um edifício residencial e ao lado de uma verdadeira autopista, de fora a casa até parece modesta, mas a pequena fachada se abre num ambiente sóbrio, com pé direito duplo e nenhuma referência a um bistrô como o do cardápio que descobrimos depois. Logo na porta há uma boa exposição de vinhos para o cliente escolher e levar para a mesa. Curiosamente todos têm uma etiqueta com seu preço, bons preços, para você não precisar ficar perguntando quanto custam. Então, para deleite dos que pensam como o Luiz, nós escolhemos um Torres Gran Coronas Cabernet Sauvignon para acompanhar os pratos que ainda nem conhecíamos.

No Le Vin o ambiente é bastante diferente. Instalado numa casa no coração de Ipanema, a filial carioca do original paulistano chama a atenção pela simplicidade, quase descuido, com a ambientação externa. Mesinhas de bar ocupam a calçada sob um toldo que cobre também a varanda onde nos sentamos. Na entrada pelo que seria a garagem da casa, há uma vitrine com ostras frescas o que já dá uma dica do perfil do Le Vin. Ao fundo uma grande e bem iluminada adega faz jus ao nome que está no letreiro. Lá dentro o ambiente é mais arrumado mas ainda com um ar caseiro que não acrescenta nada, inclusive a toalha quadriculada usada em todas as mesas remete muito mais a uma cantina do que a um bistrô.

Então, além de totalmente diferentes, os ambientes das duas casas pouco ou nada têm a ver com suas propostas culinárias, muito curioso.

Depois de abrirmos o Torres, chegou na nossa mesa do Intervinos um couvert delicioso com croquetes de cordeiro, queijo de cabra no azeite, caponata, patê e ótimos pães. Ficamos sem reclamar nesse couvert com Torres por quase uma hora esperando uns amigos atrasados. E se eles tivessem se atrasado mais, eu até agradeceria. Mas na hora de escolher os pratos, aconteceu aquela dificuldade típica de bons menus que já abordei aqui. Dá vontade de provar todos, desde a salada mais simples ao tournedor com foie gras do dia. Mas quando tem cassoulet como opção, a concorrência fica prejudicada.

Em Ipanema também escolhemos o vinho antes, duas taças de um Luigi Bosca Pinot Noir muito aromático que chegou junto com um couvert bastante simples: bom pão fresco, patê e boa manteiga. A ressalva que faço quanto ao couvert é que éramos duas pessoas e nos cobraram dois couverts embora se fossemos uma ou quatro pessoas, como vi em outras mesas, o couvert seria o mesmo. Acho correto cobrar por mais quando repõem o que comemos, o que não aconteceu. Mas vamos em frente porque a comida estava boa. Como havia comido cassoulet alguns dias antes, optei por um entrecôte com bernaise e batatas fritas que estava delicioso, no ponto, macio, molho muito bom e bem apresentado. Confesso que não esperava por tanto. A madame pediu um ravióli de camarão com molho de tomates e gengibre muito bom também.

A mesa no Intervinos era maior e os pratos mais variados mas com a mesma boa surpresa. Da pissaladière e do penne com abobrinha das meninas à paleta de cordeiro com legumes grelhados do Gus, todos sorriram da primeira à última garfada. Inclusive eu com meu cassoulet servido perfeitamente numa caçarola de barro e o Paolo com seu tournedor com foie gras.

Nas duas casas há diversas opções de massa, carnes, peixes e até sanduíches para harmonizar com suas extensas cartas de vinhos. No Intervinos, heresia, há também uma carta de cervejas bacana para aqueles que não estiverem a fim de um bom vinho com um bom preço para acompanhar bons pratos num bom ambiente. Já o Le Vin tem seu próprio vinho, um Cabernet Sauvignon produzido na Argentina.

Nos dois restaurantes com vinho no nome as sobremesas mantiveram o nível dos pratos. Os crème brûlée estavam ótimos e os ovos nevados que a madame comeu no Le Vin também. Não provei nenhum vinho de sobremesa embora, claro, estivessem nas cartas. O serviço foi atento nas duas casas com alguma vantagem para a de São Conrado pela qualidade das mesas, toalhas e guardanapos. A conta foi parecida nas duas também, R$ 120,00 por pessoa.

Apesar de parecidas em muitos pontos, minha avaliação dá uma vantagem importante para o Intervinos pelo conjunto da obra que é bem mais redondo do que no Le Vin. O ambiente em São Conrado é muito melhor, de mais qualidade do que em Ipanema. A carta de vinhos mais rica em opções que a gente pode comprar num jantar despretensioso. Afinal, com vinho no nome, os dois restaurantes devem querer que seu clientes tomem vinho sempre. Os cardápios se equivalem mas, segundo a madame que é mais exigente do que eu, com vantagem para o Intervinos. Concordo com ela.

Em resumo, para quem se dispõe a atravessar um túnel para comer e beber bem com um preço justo e não faz questão de ver e ser visto, o Intervinos é hoje sem dúvida uma das melhores opções da cidade. Dá até para desculpar seu nome.


Intervinos
Estrada da Gávea, 698,
São Conrado
21 3322.6962
www.intervinos.com.br

Le Vin
Rua Barão da Torre, 490
Ipanema
21 3502.1002
www.levin.com.br

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4.6.09

Três meses depois, três Tempranillos

Se alguém acha que vou começar explicando porque faz tanto tempo que não posto nada aqui está muito enganado. Então vamos começar logo a recuperar o tempo perdido.

A segunda degustação cega do Bistrô, como vocês vão ver, exigiu muito mais dos degustadores do que a primeira. Ao contrário da degustação de cervejas, quando o importante eram as opiniões dos supostos experts, nessa aqui tinhamos que "descobrir" o que estávamos bebendo.
Tudo bem que descobrir é um pouco forte porque não foi exatamente uma degustação cega, era no máximo míope, o que não tira seu valor.
Juntei na mesa de casa três casais amigos e três Tempranillos espanhóis de regiões diferentes, inclusive os casais pois um deles era semi-paulistano. Arrumei os seis lugares e coloquei dezoito taças na mesa já seguro que de que talvez nem todas voltariam para o armário. Com mais os copos e jarras de água e as cestas de pão já dá para imaginar como ficou a mesa.

Comecei apresentando a uva da noite, uma típica espanhola que tem esse nome exatamente por poder ser colhida mais cedo, mais "temprano". Ela não é uma grande estrela no showbiz do vinho, mas casa muito bem com diversos tipos de comidas, o que para mim é um grande atributo. E por algum motivo que desconheço, começou a aparecer bastante em diversos supermercados por aqui.

Depois apresentei os três cavalheiros. Um Clos Torribas 2004 recém comprado, um Rioja Campillo Reserva 2002 e um Raimat Costers del Segre 2001 que tinha guardados em casa. Nada de decantador nem filtro. Botei eles na geladeira por quinze minutos e quando abri estavam todos a dezesseis civilizados graus.

No impresso que preparei para cada um na mesa, além de um pouco de história e da tabela para a degustação havia três descrições que não identificavam o vinho aos quais ser referiam. Por exemplo:

Vinho 3 – 100% Tempranillo. Cor vermelho cereja profundo. Sedutores aromas de pimenta preta, cedro, cereja e ameixa preta com especiarias no palato. Aveludado, potente e equilibrado acabado. Elegante na boca desenvolvendo tons de café e licor.

A brincadeira consistia em casar corretamente o vinho com alguma das descrições. Não é cega, é só míope, sacaram? Posso garantir agora que a degustação míope é tão boa quanto a cega.

Servi o primeiro vinho mas ninguém foi capaz de provando apenas um reconhecer a qual descrição se referia. E como nenhum de nós nem de longe entende alguma coisa do assunto, para chegar à conclusão de quem era quem foi preciso provar os três vinhos e encontrar em algum deles algum traço de uma das descrições apresentadas. Bebe-se muito mais assim. Discute-se muito mais também, com cada um verbalizando aromas e sabores e relendo cada descrição em busca de uma indicação qualquer que diferencie cada vinho na boca.

Quando abri o envelope que identificava cada vinho, quatro de nós tinham acertado todos, ficando os dois mais entendidos com apenas uma resposta certa.
Os que acertamos usamos a mesma estratégia: buscar uma característica única em cada vinho, que só existisse nele e que, claro, fosse de fácil identificação. Não adiantavam aromas de cedro e cereja, mas um aroma de pimenta preta que pica o nariz foi o que casou o Vinho 3 com o Raimat.

Mesmo sem a condução segura de um Célio Alzer como fizemos no Bazzar, conseguimos de forma caseira e totalmente empírica - e que consome uma quantidade de vinho muito maior - identificar características de cada garrafa e unanimemente escolher o Clos Torribas como o melhor vinho da noite mostrando que um pouquinho de Cabernet Sauvignon não faz mal a ninguém.

Forramos o estômago com tortilhas de batata e sobrassada e sorvete com calda de chocolate quente.

Como vocês estão vendo, posso passar três meses sem aparecer por aqui, mas de jeito nenhum deixo de comer e beber bem e de principalmente me divertir com isso.


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2.7.08

Dois programas imperdíveis

Degustações de vinhos e jantares com menus especiais viraram figuras fáceis no calendário gastronômico carioca. Mas a verdade é poucos desses eventos valem à pena. São raras as degustações de vinhos que não tem o objetivo de vender garrafas e mais raros aindas os jantares diferentes, com novos sabores, sem firulas e que não custem os olhos da cara. Por isso, este humilde blog cumpre o dever de recomendar dois programas desses que entregam mais do que prometem, divertem muito e cabem no bolso com prazer.

Terças Catalanas no Garden - o simpático restaurante do Jardim de Alah promove todas as terças um jantar com pratos catalães de verdade. De entrada você vai poder escolher entre Ovos com Sobrassada e Mungetes amb Butifarra, eu ia querer os dois. De prato principal, o Fideuá de frutos do mar ou o Fricandò de Vitela, e de sobremesa Mel i Matò ou Crema Catalana. Tudo por mais do que honestos R$ 49,00. Nem vou explicar o que é cada um aqui para não estragar a surpresa, mas posso garantir que esses pratos fazem uma verdadeira fotografia da tradicional comida da catalunha, aquela que os catalães comem todos os dias e que faz os turistas voltarem para provar mais. Façam já uma reserva.
O Garden fica na Rua Visconde de Pirajá, 631 - Ipanema. Tel/Fax: (21) 2259-3455.

Degustação cega do sul da Itália no Bazzar - É de longe o melhor evento de degustação de vinhos para leigos da cidade. Primeiro porque é às cegas, o que torna tudo muito mais divertido e educativo. Segundo porque o Bazzar não é uma loja de vinhos e o objetivo da degustação é exatamente descobrir o paladar dos clientes para ajudar a montar a carta do restaurante. Quem comanda tudo é o craque Célio Alzer que com enorme simpatia e conhecimento faz do evento uma verdadeira aula sobre vinhos. Claro que além dos vinhos a Cristiana organiza tudo e prepara sempre um comidinha deliciosa para forrar o estômago.
Ontem estive lá provando às cegas tintos argentinos, chilenos e uruguaios. Foi como sempre muito divertido com todos tentando justificar suas adivinhações sobre qual vinho estavamos provando. Para vocês verem como o Célio é bom na explicação, eu acertei todos os cinco vinhos da noite :)
A degustação de vinhos do sul da Itália vai ser dia 19 de agosto e as reservas podem ser feitas pelo email bazzar@bazzar.com.br. Não perca. O Bazzar fica na Barão da Torre, 538 em Ipanema.

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23.4.08

Prazeres destrutivos

Um dos grandes prazeres que o Bistrô me dá é poder presenciar, às vezes até participar, da derrocada de paradigmas gastronômicos de qualquer tipo e tamanho. Tudo bem que de vez em quando eu dou um empurrãozinho, mas é sempre pelo prazer das minhas leitoras.

Por isso mesmo poucos assuntos me dão mais prazer do que falar de vinhos, mais precisamente dos quase sempre ridículos conceitos, rituais, harmonizações, regras e demais preceitos que pautam tão rigidamente o mundo dos vinhos. Acho mesmo que existem pessoas influentes que tentam solidificar essas regras para manter seu mundinho de cabernets e bourgognes intocado e a salvo de curiosos ignorantes como eu. Ainda bem que tem gente que faz o contrário.

A empresa francesa, sim, francesa, WineSide resolveu "engarrafar" bons vinhos de forma diferente. Um tubo de ensaio com tampa de rosca - só pela tampa alguns já diriam que é uma heresia - guarda vinhos como Chateneuf du Pape, Pomerol e outros clássicos em volumes de 60 e 100ml perfeitos para quem quer apenas provar um vinho sem ter que comprar a garrafa. Fácil de levar, refrescar e usar, eles oferecem caixas com tubos de vinhos diferentes de um mesmo tipo de uva, safra ou região. É amostra grátis de vinho sim, porque não. Só que não é gratis e por enquanto só vende na Colette em Paris. Chique pacas.


Outro desmonte foi feito por uma empresa americana que, indo na direção contrária de algumas vinícolas que passaram a oferecer seus vinhos em embalagem tipo tetra pack como acontece com os sucos de frutas, passou a engarrafar, em garrafas de vidro mesmo, sucos de uva como os vinhos. Acontece que esses sucos são de uvas varietais tradicionalmente usadas para fazer vinho. São sucos de Merlot, Cabernet e Chardonnay. Além de ter todas as propriedades anti-oxidantes do vinho, esses sucos da First Blush podem e devem ser consumidos por crianças numa primeira aproximação das esquisitices que elas conhecerão quando trocarem para as garrafas de rolha. O problema vai ser a precocidade:
- Pô mãe, esse chardonnay não combina com meu bifinho! Quero merlot!

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7.5.07

Enroscados

Parece que bastou a gente comentar sobre roscas e rolhas aqui para o Zona Sul se tocar e começar a vender vinhos enroscados como diz o Luiz Horta. Olha só o que eu achei lá anteontem:

Clique para ampliar

As duas garrafas da direita são de rosca e a da esquerda, de rolha. O curioso é que o vinho do centro, enroscado, é R$ 1,00 mais barato do que o da mesma linha que está ao lado, de rolha. Alguém conhece algum deles para recomendar ou não recomendar?

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22.4.07

A culpada é a rolha

Lá vou eu me metendo em um assunto do qual não entendo nada, mas que me interessa muito principalmente porque acredito que se trata de um estigma enogastronômico que vale ser discutido.
Vi pela primeira vez vinhos com tampa de rosca quando morava em Barcelona no final dos anos oitenta. Eram vinhos baratos para serem consumidos imediatamente mas nem por isso eram vinhos ruins, apenas vinhos populares daqueles que os trabalhadores espanhóis bebem na hora do almoço. Claro que eu torcia o nariz e passava direto, preferindo um vinho mais caro, nem sempre com a garantia de ser melhor, mas com rolha, claro. O estigma de que vinho com tampa de rosca nunca é bom persiste, mas essa percepção vem mudando basicamente por dois motivos: primeiro a rolha de cortiça está ficando cara e pesando no custo final de vinhos mais baratos e segundo porque rolhas de cortiça contaminada têm causado perdas de 10 bilhões de dólares anualmente aos produtores de vinho. E quando o calo aperta é hora de trocar de sapato.
O vinho estragado pela rolha chama-se bouchonée e é reconhecido pelo seus aromas característicos de trapos mofados ou papelão molhado, que se sobrepõem a qualquer outro aroma que o vinho possa ter e o torna imbebível. Vem daí o ritual de se cheirar a rolha depois de abrir a garrafa, coisa que só deve ser feita com vinhos de guarda, aqueles que estão esperando a hora certa para serem degustados. Cheirar rolha daquele chileninho que você comprou no supermercado e levou para o jantar na casa do amigo é mico.
Mico quase impossível de pagar se você tivesse comprado um vinho da Nova Zelândia onde 70% da produção é engarrafada com tampas de rosca garantindo que não haverá nenhum vinho bouchonée. Mas porque este ainda não é um grande movimento mundial?
A rolha é um produto fantástico, é flexível, trabalhável, impermeável no ponto e dizem que foi inventada por Don Perignon, ele mesmo. Além do mais, sacar um rolha de um vinho tem lá seu ritual por mais banal que o momento seja. É um prazer e uma tradição. E como o mundo do vinho é feito de tradição, qualquer mudança é difícil, lenta e trabalhosa. Mas ela está acontecendo e nem tão silenciosamente assim. Muitos produtores, inclusive franceses, já estão estudando a possibilidade de trocar a rolha de cortiça pela tampa de rosca e fazendo testes com este tipo de engarrafamento e aceitação pelo mercado que acredito ser a principal barreira para a expansão dessas tampas.
Além da Nova Zelândia, a Austrália e os Estados Unidos estão engarrafando boa quantidade de vinhos usando tampas de rosca, principalmente brancos que em geral são feitos para serem consumidos rapidamente. Com os tintos a história é diferente e o papel da rolha de cortiça é muito mais entranhado e vinculado ao produto.
É admirável que novos produtores como os dois países da Oceania apostem nesse tipo de tampa para seus produtos sem medo de que o mercado os perceba como menores, de pior qualidade. Talvez os enochatos de lá não sejam tão chatos como os de cá que com certeza torceriam o nariz para um bom novo bom vinho nacional sem rolha mesmo antes de prová-lo.

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19.3.07

Vinhos de outono

Foto de Ana WintourQuando falam de vinho, em geral eu calo a boca. Por enquanto, e espero que seja sempre assim, ainda prefiro abri-la para beber vinho do que para falar dele. O que entendo do assunto daria para pouco mais do que uma onomatopéia. Tarefa mais difícil que falar, mas pré-requisito para isso, é conseguir perceber com o olfato, visão e paladar as palavras que o vinho pede que sejam ditas sobre si. É aí que a coisa pega. Quase impossível é tornar uma degustação algo simples, fácil e sem afetações para enoignorantes como eu. Mas isso aconteceu.
Semana passada fui convidado pela Cristiana Beltrão para participar de uma degustação de vinhos de outono, conduzida pelo Célio Alzer, no restaurante Bazzar em Ipanema. A idéia era provar quatro tintos europeus que, de acordo com o Célio, seriam vinhos para um estação mais fresca e seca como o outono. Aqui já posso fazer minha primeira observação: os vinhos eram tão bons que não me incomodaria em bebê-los o ano todo. Mas enfim, os vinhos de outono foram os seguintes:
. Dão Touriga Nacional 2000, Quinta dos Roques (Dão, Portugal)
. Gran Feudo Viñas Viejas 2000, Julián Chivite (Navarra, Espanha)
. Château de Maucaillou 97 (Bordeaux, França)
. Amarone Classico 'I Castei' 99, Michele Castellani (Veneto, Itália)
Uma das coisas que já aprendi é que, para esse nível raso em que me encontro no terreno dos vinhos, é importantíssimo que a degustação aconteça em um ambiente o mais relaxado possível e a degustação no Bazzar foi daquelas harmonizações perfeitas entre a simpática acolhida dos anfitriões e o extenso conhecimento do Célio. Como é que ele consegue guardar na cabeça tanta informação sobre aromas, sabores, uvas, terroirs, donos de vinícolas, madeiras de barricas, etc., e ainda passar para nós tudo isso de forma tão simples, simpática e sem nenhuma complicação? O cara é definitivamente um craque. Algumas vezes quase consegui perceber os aromas que ele citava o que para mim é uma grande evolução. Quem sabe um dia ainda faço isso sem ter ninguém soprando no meu ouvido?
Foi muito bacana poder comparar os aromas e sabores de vinhos tão bons e aprender um pouco sobre suas histórias e porque eles têm as características que o Célio magicamente nos faz perceber. Terminamos a noite se não mais entendidos em vinhos, pelo menos com a boca cheia de novos sabores – frutas secas, terra molhada e couro, por exemplo – e provando dois pratos deliciosos que a Cristiana preparou de surpresa.
Na modesta opinião da nossa mesa, o Gran Feudo foi o vinho que melhor se harmonizou com o bom papo reinante. Não se sabe se foram os aromas, o sabor ou a quantidade nem se o Célio concorda com nossa escolha, mas o espanhol e seus colegas de taça fizeram com que pessoas que mal se conheciam saíssem de lá quase como velhos amigos. Coisas do vinho.

Dia 19 de abril o Bazzar promove outra degustação, dessa vez somente com vinhos top nacionais, mas também com o Célio. Programa imperdível.

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14.1.07

Vinhaços

Não é à toa que o mercado de vinhos é um mundo paralelo, uma outra dimensão. Enquanto um jantar num dos melhores restaurantes do mundo, feito por um chef prá lá de reconhecido, premiado, testado, resenhado e principalmente provado sai por volta de US$ 500, há vinhos com quase cem anos, sem garantia nenhuma de que estejam vivos, valendo mais de US$ 100.000 a garrafa e com fila de gente atrás dela.
Foi o que aconteceu em outubro num leilão em Nova York, onde garrafas magnum de Romanée Conti 1919 saíram por US$ 101.575 cada uma e o lote de meia dúzia de Roumiers Bonnes Mares 1923 foi arrematado por US$ 113.525! Olhando assim, o que esses caras estão comprando é quase um bilhete engarrafado de uma loteria que só vai correr quando a garrafa for aberta. Por isso, nesse mercado não só o vinho vale muito, mas seu histórico também. Quem produziu, quem comprou, quem guardou, quem vendeu e principalmente quem já bebeu.
Imagine a cena: o comprador da meia dúzia de Bonnes Mares entra no melhor restaurante de NY com duas dessas garrafas “de baixo do braço” pronto para abri-las ao lado de um prato que faça jus à bebida. O sommelier, que raramente na vida tem oportunidade de colocar as mãos num vinho daqueles, prepara tudo para que a experiência seja perfeita e quando abre a primeira garrafa....nada, nem a cor se salva. A expectativa cresce para a segunda garrafa, que infelizmente também não está boa. O que fazer com aquelas outras quatro na adega de casa? Vender rápido, diriam os mortais. Mas na certa, alguém que compra vinhos nesse nível já deve ter tido várias experiências assim e deve ter tantos bilhetes de loteria na adega de casa que sabe que esta é uma das regras do jogo.
Aqui no meu mundo real, imagino que esses caras quando arrematam um vinhaço desses devem estar querendo na verdade comprar uma memória, a lembrança de um sabor e de um momento inesquecíveis depois que terminam a garrafa. Alguns deles talvez bebam sozinhos, não deixando que nenhum fator externo atrapalhe, outros ao contrário, compartilham com os amigos e complementam o vinho até com alguma comida. Outros ainda devem morrer esperando pelo momento certo de abrir uma garrafa.
Se eu fosse um desses fanáticos, com certeza seria como o vendedor desses vinhos que citei no início. Ele está vendendo porque quer passar a colecionar para beber, não para guardar. Por isso está trocando parte da sua adega pelos vinhos que melhores momentos lhe trouxeram, seja abrindo uma garrafa sozinho no escuro da adega, seja em uma celebração qualquer que, como qualquer celebração, sempre merece que se abra um bom vinho para ajudar a ser lembrada. E isso, não tem preço.

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27.12.06

Enoblogueiros, uni-vos!

Para vocês verem o poder que os blogs estão ganhando na cozinha e na mesa. O pingasnocopo.blogspot.com é um blog sobre vinhos portugueses editado pelo Rui desde abril de 2006. O Rui gosta de degustar suas "pingas" sem nenhuma prentensão além de se divertir e dividir experiências e taças de brancos, rosados e tintos portugueses. E faz isso muito bem.
Nestes meses de blog ele conheceu outros enobloguistas portugueses - e alguns brasileiros também - e agora, dia 12 de janeiro, vai promover o primeiro encontro de EnoBlogs da terrinha. Já são treze participantes confirmados - o Robert Parker já deve ter avisado que não vai - que irão encontrar-se para beber, bater-papo e comer em um restaurante de Lisboa, o York House. Cada um leva seu vinho para ser dividido, provado e comentado. Nada de críticos, importadores nem distribuidores querendo vender vinho. Depois da degustação um jantar, claro, com uma ementa bem interessante:
Iscas de pato sobre folhado com molho de vinagre balsâmico;
Lombinhos de linguado com molho de amêndoas e chantereles;
Costeletas de borrego com molho de azeite de hortelã;
Tarte Tatin com gelado de canela.
Parabéns ao Rui e aos outros enoblogueiros portugueses pela iniciativa. Tomara que este encontro seja só o primeiro de muitos. Se você estiver por Lisboa e quiser ir representando o Bistrô Carioca, inscreva-se no blog do Rui.

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24.11.06

Harmonizando idéias

Harmonizar está na moda, e não é só comida com vinho. No Rio estão acontecendo eventos propondo a harmonização de "idéias e sensações". Cada encontro começa com a palestra de um especialista no tema proposto, acompanhada de um breve debate. Logo após se segue uma degustação com pratos e vinhos alinhados ao tema.
Para mim é uma proposta bastante arrojada. Não imagino o resultado, mas pode ser interessante, principalmente porque acontecem no restaurante Olivier Cozan, um dos melhores bistrôs cariocas. Os próximos eventos serão dias 28/11 e 4/12. Os temas, pratos e vinhos estão logo abaixo.
Quem quiser participar, me mande um email que eu respondo com o contato.

28/11- Márcio Scalerico - As trocas culturais entre a Cristandade e o Islã durante as Cruzadas
Prato Principal: Perdiz com purê de trigo sarraceno ou ravioli de queijo de cabra com molho de manjericão.
Sobremesa: Crepe de maçã
Espumante: Louis Perdrier Brut – França
Vinho: Carpe Diem – Cabernet Sauvignon 2004 - Chile
Vinho de sobremesa: Carpe Diem Ambrosia (Late Harvest) 2005 - Chile

04/12 Carmem Hanning - Alegria: a terceira margem de João Guimarães Rosa
Prato Principal: Coq au vin com batatas gratinadas ou ravioli de lagostim
Sobremesa: Nougat glacé com framboesa
Espumante: Chandon Brut
Vinho: Torres Coronas 2004 Vilafranca de Penedès - Catalunha, Espanha
Vinho de sobremesa: Miguel Torres Riesling Vendimia Tardia

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31.5.06

Moët

Talvez pela idade, pelo pé que tenho no velho mundo ou por viver numa época em que tudo muda muito rápido e novidade demais às vezes enche, tradição tem sido um assunto recorrente aqui nessas páginas. O fato é que atualmente dou mais valor a conceitos já estabelecidos do que ao que de mais novo esteja acontecendo em qualquer área, principalmente na área perto do meu prato e, no caso desse post, do meu copo.
Nessa minha recente viagem à França, visitando as caves da Moët & Chandon em Épernay, vi como uma empresa que possui e usa as mais avançadas tecnologias na produção de champanhes, prefere se apresentar aos seus visitantes não com esse lado hi-tech que qualquer empresa com dinheiro pode comprar, mas sim com toda a sua tradição e história de séculos nesse mercado cada vez mais concorrido.
Ao contrário dos produtores de vinhos e espumantes do novo mundo que mostram caras limpas, jovens, mas nem tanto, com as sedes das suas vinícolas em construções cheias de estilo, no alto de colinas verdes e bem tratadas, a sede da Moët fica na estreita rua principal da cidade de Epernay, a uma hora de trem de Paris. A bela construção é do início do século XlX, restaurada na medida para manter a história e elegância dos salões e oferecer conforto aos visitantes, que não são poucos.
Há visitas guiadas a cada vinte minutos em vários idiomas. A que nós acompanhamos foi em francês já que minha mulher muito sabiamente disse que, como estávamos visitando a casa de um dos maiores ícones da gastronomia francesa e nos viramos direitinho no idioma deles, seria até uma heresia fazer a visita em outro idioma.
Começamos com um pouco da história da Moët, sua criação, seu relacionamento com a nobreza e com Napoleão, suas fusões e aquisições até tornar-se a mega empresa multinacional onipresente que é hoje. Assistimos então um DVD mostrando os lindos vinhedos de onde vem a matéria prima do seu produto e as características do solo e clima da belíssima região de Champagne, pela qual havíamos acabado de passar de trem, que fazem esse produto único. Depois, nossa simpática guia holandesa nos convidou para descer uma longa escada que entrava terra adentro.
Lá embaixo estávamos a mais ou menos doze graus. O chão era de terra e as paredes de pedra e úmidas escavada há muito, muito tempo. Percorremos apenas algumas dezenas de metros das dezenas de quilômetros subterrâneos que formam estas mais antigas caves da Moët. Vimos cada etapa da produção do champanhe. Soubemos que o processo de girar as garrafas ali é feito por um único homem que trabalha na empresa há trinta e cinco anos e gira em média cinqüenta mil garrafas por dia. Vou repetir: cinqüenta mil garrafas por dia, uma pessoa só. Aprendemos também que o assemblage do champanhe é feito por uma equipe de apenas treze pessoas lideradas por um Chef de Cave que prova a cada ano mais de 100 vinhos para produzir o champanhe mais famoso do mundo. Aqui cabe um parêntese:
Chef de Cave é "o" cara responsável por definir as características do único produto desta multi mega empresa usando apenas seu paladar e sua memória gustativa. Ele prova até 150 vinhos ainda intragáveis para nós e tem que definir qual a quantidade de cada um vai compor o sabor final dos próximos champanhes produzidos que têm que manter a qualidade e conseqüentemente o sabor de um Moët & Chandon. Esse Chef e sua equipe, além de ganharem os tubos, nunca viajam juntos no mesmo avião quando vão provar vinhos fora da França. Por aí dá para imaginar a importância desses profissionais na manutenção do padrão de qualidade do produto e da tradição da empresa.
O final do parêntese serve bem para ilustrar o que vimos, ou melhor, o que não vimos lá embaixo. Não vimos sequer uma máquina para girar garrafas, um carrinho elétrico, uma esteira rolante, nada. A coisa mais moderna que vimos nas caves de Épernay foi a luz elétrica, mesmo assim num fio desencapado com uma lâmpada comum pendurada de quando em quando para iluminar o caminho. A Moët só nos mostrou o melhor de sua tradição, e eu descobri que era exatamente isso que eu queria. Queria ver garrafas empoeiradas em vários estágios de maturação, queria ver o mosto no fundo delas e como o líquido no interior se transforma em uma das minhas bebidas favoritas. Queria mesmo era ouvir, ver e sentir o cheiro de uma bebida que está presente em todas as celebrações importantes dos últimos séculos. Não imagino ninguém que queira visitar a suas caves para conhecer a última tecnologia em produção de champanhes. Acabamos nosso tour tomando duas taças de millésimes rosé esplêndidas e conversando com um casal de franceses do interior que visitavam a Moët pela primeira vez e estavam tão impressionados quanto nós com os valores que nos foram apresentados.
Talvez toda a história da Moët & Chandon não seja percebida na hora que tomamos uma taça da sua marca. Talvez ela só consiga manter sua qualidade e manter-se no topo porque usa toda tecnologia disponível para produzir seu champanhe. Mas tenho certeza que o prazer de tomar um Moët não seria o mesmo se eles não fizessem questão de manter algumas coisas como elas sempre foram, mudando só o necessário para sobreviver e crescer. Deve ser coisa da idade.

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