Roberta Sudbrack
O restaurante da Roberta Sudbrack é outro daqueles que de tão perto de casa a gente sempre deixa para ira a qualquer hora. Como essa hora qualquer estava demorando a acontecer, a gente foi lá e fez, a reserva, para o penúltimo dia de funcionamento da casinha laranja em 2007. O resultado é que se 2008 for como terminamos 2007 em matéria de comida boa, estamos feitos.
Acompanhados dos queridos Monica e Alexandre, a madame e eu abrimos os trabalhos com as brusquetas de tomate fresco, um poãozinho de gruyere e patê de campagne que já mostravam o sabor verdadeiro e a simplicidade rica que dominaram todo o jantar.
Jantar que começou com vários sabores em uma colher. Lichía recheada de foie gras e gelatina de Tokaj (Tokaj é um vinho doce húngaro). A colherada que começa doce termina sem percalços no sabor denso do foie gras numa combinação que nos fez pensar como alguém consegue imaginar que essa combinação de sabores e produtos tão diferentes pode dar tão certo. Claro que sabores tão opostos numa mesma colher pode não agradar a todos, mas ousadia e confiança no paladar dos clientes são caracteristicas dos grandes chefs.

Depois fomos brindados com um um aspargo cozido no ponto - aquele ponto perfeito que você nunca consegue fazer em casa - com um molho doce e picante com textura na língua e flores de couve que marcou o jantar. O favorito da noite para a Monica.


O penúltimo prato antes da sobremesa foi um risoto molhado de galinha da angola com sabores tão suaves e familiares que eu sorria a cada garfada lembrando de novo da comida e dos cheiros da cozinha da minha infância. É incrível como um prato simples, sem invencionices, mas bem feito tem muito mais a oferecer do que espumas, sorvetes e essas coisas que a gente vê como alta gastronomia por aí.
Até aqui nos acompanhou um senhor Cave Geisse Brut, dos melhores espumantes nacionais. Depois tomei um copo do ótimo branco da casa. A vasta adega privilegia os vinhos nacionais e foi criada pelo Johnatan Nossiter, diretor do documentário Mondovino, que, na minha opinião, como documentarista é um ótimo sommelier. Mas digressiono, voltemos aos pratos.

Um sucesso da casa completou essa primeira etapa do jantar. Leitãozinho preparado de uma maneira que deixa a carne suave e molhada enquanto a pele fica tão crocante que só dá para comer com as mãos. O purê de batatas que acompanha é perfeito na simplicidade total do prato. Cheguei à conclusão que eu nunca tinha comido torresmo na vida pois nenhum dos que supostamente me apresentaram com esse nome sequer chegam aos pés do que provei na Roberta.

A Roberta consegue fazer uma cozinha que ao mesmo tempo que é contemporânea, moderna e rica, é simples, familiar e aconchegante. Conhecer os limites entre criatividade e invencionice, tradição e repetição e personalidade e auto-afirmação na comida é muito difícil, ainda mais em tempos tão autorais e marqueteiros como os que estamos vivendo na gastronomia. Mas a chef consegue.
Saí da casinha laranja pensando como era possivel que tantas lembranças saborosas tenham passado pela minha cabeça enquanto eu comia pratos tão simples e tão modernos. Não sei como ela faz, mas, se além dos prêmios de cozinha contemporânea que ela ganha por aí, houvesse um para cozinha tradicional, eu premiava a Roberta também.
Como diz a outra Roberta: vá lá!
Roberta Sudbrack
Av. Lineu de Paula Machado, 916 Jardim Botânico - RJ
Tel.: 21 3874.0139 (O restaurante reabre dia 16/1)
PS: Como dá para notar, as fotos do leitãozinho e dos chocolates destoam das outras porque não foram feitas por mim mas pelo Marcelo Katsuki, que esteve lá uma semana antes de nós. Como o cardápio da Roberta muda todo dia, vale ver o que o Kats provou também. Clique aqui. Arigatô Kats!
Marcadores: Comendo e bebendo fora

