A tal da gentrificação


Palavrinha da moda nas grandes cidades:
gen.tri.fi.ca.ção | s. f
Processo de valorização imobiliária de uma zona urbana, geralmente acompanhada da deslocação dos residentes com menor poder econômico para outro local e da entrada de residentes com maior poder econômico.
Estou achando que os dicionários irão precisar de uma atualização urgente.
Na gastronomia, gentrificação é o novo patamar da antiga gourmetização que já não é suficiente para definir a necessidade de suposta inovação dos nossos chefs e gourmets.
Acho que tudo começou com a água que de elemento mais abundante da Terra virou um suporte para os mais absurdos produtos e negócios. Até bar de água de chuva montaram. Beber água filtrada é brega. Aí virou bola de neve. Vieram outros itens básicos como café e sal que deixaram de ser commodities e hoje são vendidos e consumidos como caviares. Pilão e Cisne? Brega, brega!
Achei que a coisa tinha chegado no ápice com o Nespresso que transformou o ato de tomar um cafezinho num processo decisório digno de um astronauta.
- Um café e a conta, por favor.
- O senhor quer longo ou curto, forte ou suave, da Serra da Canastra ou do Iemen, na xicara de porcelana ou na de titânio?
- A conta, por favor.
O cafezinho como conhecíamos foi colocado para escanteio, gentrificado desse novo mundo gourmetóide.
Vendo o sucesso alcançado pela grande indústria, chefs e empreendedores da gastronomia não perderam tempo. Por que não agregar valor – bleargh – aos pratos e comidas do dia-a-dia? Por que não gourmetizar a street-food e fazer uma boa grana com isso?
Pronto, era a luz que faltava para humilhar de vez com todos os valores e sabores que só a comida mais verdadeira e simples tem. O cachorro-quente, pipoca, hamburguer, churros, coxinha, empadinha e todas aquelas comidinhas que nos alimentaram felizes a vida toda, agora viraram as primas pobres das novas versões delas mesmas. Umas coitadas.
Chefs famosos ou nem tanto assim agora “assinam” empadinhas e coxinhas gourmet, pipocas e churros upscaled e, claro, cobram os olhos da cara por eles. Em Porto Alegre tem uma hamburgueria que oferece “hamburguer” de coq au vin. Precisa disso? Precisa usar os nomes dessas santas comidinhas em vão? Precisa pra vender, né? Acaba acontecendo um fenômeno curioso no qual restaurantes gastronômicos, bares, lanchonetes e até carrocinhas se veêm servindo pratos com os mesmos nomes.
Enquanto isso os clientes das antigas coxinhas e hamburgueres, que não querem nada mais elaborado, diferente, melhor ou pior do que tinham, têm que rebolar para encontrar casas onde ainda exista esse tipo de comida pois o fenômeno que se segue é que quem fazia o basicão muito bem, se sente acuado e acha que tem que inventar algo novo também. Na seqüência aumentam também os preços e afastam os clientes tradicionais. É ou não é a total gentrificação dos street-fooders?
Também é cada vez mais comum ver novas versões cheias de design das velhas carrocinhas de comida de rua dentro de shoppings, servindo novas versões glamourizadas da velha comida de rua. Picolé, churros, água de côco e café dominam muitos malls por aí. Seria isso o oposto da gentrificação gastronômica? Não sei, é tudo muito complexo para mim.
Então da próxima vez que você estiver num shopping e esbarrar com uma carrocinha vendendo coxinhas com massa de mandioquinha aromatizada com raspas de limão-siciliano, ou parar no boteco e ver no prato do dia salmão grelhado com teriyaki não pense que atravassou o espelho da Alice e caiu num mundo paralelo. Se nem mais o Aurélio consegue definir em palavras o que está acontecendo na gastronomia, imagine você. Relaxa e come porque não está fácil pra ninguém.

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