
Nunca li uma crítica de restaurante sem o crítico pelo menos fingir ter ido ao local. Mas encontrei um restaurante que não consigo entrar e por isso mesmo vou escrever oficialmente a primeira critica de restaurante sem ter ido lá. Só olhei para ele, e de longe.
Tenho a sorte de trabalhar no Leblon, bairro chique do Rio, cheio de opções para almoçar, jantar, beber e beliscar. Faz algum tempo abriu aqui ao lado uma pequena praça de alimentação com quatro restaurantes, três bastante conhecidos e um japonês que continua sendo novo para mim.
Já tinha visto há muito tempo, numa estação de trem em Londres, um restaurante japa com esteira rolante. Era grande e muito movimentado. Lá, os ingleses pegavam a bebida na geladeira e sentavam no balcão de frente para a esteira. Atrás dela, os sushimen trabalhavam rápido colocando sushis, sashimis e yakisobas para rodar que, à medida que iam passando, os clientes escolhiam o que queriam que comer. Depois, era só empilhar os pratinhos, somar os valores e pagar no caixa. Alta rotatividade. Era um fast food de verdade, muito legal.
O japa aqui do lado é do tipo moderninho, com decoração fria, um bar separado e poucas mesas. Seu maior atrativo é um enorme balcão central com a tal esteira rolante onde a produção dos sushimen fica rodando em potinhos com tampas transparentes. Quase igual ao de Londres. Quase.
Durante o último mês tentei ir lá quatro vezes na hora do almoço mas em nenhuma delas consegui entrar. Acabava ficando no restaurante da frente, velho conhecido meu, onde fazia questão de sentar olhando para esse japonês. Nessas quatro tentativas não consegui entrar no japa simplesmente porque ele estava completa e totalmente vazio. Os potinhos rodavam lentamente na esteira sem nenhum cliente sentado no balcão nem nas mesas. O restaurante só não era um completo tédio porque tinham lá umas seis ou oito pessoas entre recepcionista, garçons e barman batendo papo. Não dá para entrar num restaurante assim.
Fiquei pensando como isso acontece. Uma bela instalação, em um lugar bacana, japonês não sai de moda, hora do almoço de sexta-feira e o negócio completamente vazio! Será que eu dei azar? O meu garçom confirmou que não, ali na frente era sempre assim, que de noite tinha um movimentinho, mas que o normal era aquele tédio mesmo. Mistério? Nada disso. Eu estava de frente para mais um caso típico de tampa de panela errada.
Suponho que o papel principal da uma esteira rolante deva ser agilizar o atendimento, coisa fundamental no horário de almoço, mas lá a esteira roda tão, mas tão devagar que numa hora dessas ou você come o que passar pela frente ou quando chegar aquela dupla de skin que o sushiman botou lá no começo da esteira, já vai estar na hora de voltar para o trabalho. E não há chefe que entenda atraso causado por salmão que, embora à vista, demorou muito a chegar. O pior é que o balcão vazio acaba criando um ciclo vicioso: como dá para saber há quanto tempo aqueles potinhos com peixe cru estão rodando lá se não tem ninguém comendo? Quem vai arriscar?
O resumo da história é: pegaram um conceito de fast-food há muito tempo estabelecido e conhecido no mundo todo como barato e popular - geladeira, esteira, sushimen, caixa - desaceleraram e glamourizaram com recepcionistas, barmen e garçons achando que no Leblon tudo tem que ser chique e hype. Deu no que deu.
Aí fica lá a tampa sambando em cima da panela, sem fechar direito nem cair. Depois reclamam dizendo que carioca é conservador, que não está preparado para comer como os japoneses comem e que em São Paulo o restaurante iria estar cheio. Tá bom.
PS: Pode ser que eu seja ranzinza demais, que esteja viajando, totalmente equivocado e o tal japonês esteja às moscas simplesmente porque o sushi é ruim mesmo. Pode ser, mas isso por enquanto não vou descobrir.
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