
Depois de anos pesquisando o mercado brasileiro, a
Starbucks finalmente aportou por aqui. Aqui em São Paulo, claro. Ainda de forma meio tímida para os padrões colonizadores americanos, abriu suas duas primeiras lojas no Morumbi Shopping. Pelo que a
Luciana conta, parece que eles realmente pretendem mudar a maneira como “nos relacionamos” com nosso velho cafezinho e até com o pão de queijo.
Mas enquanto a gigante americana das cafeterias - não consigo me conformar com o fato de uma empresa de um país onde se bebe água suja dizendo que é café, tenha se tornado referência em cafeterias, mas enfim - enquanto eles não aparecem aqui no balneário, fiz eu mesmo uma pesquisa de mercado para descobrir qual o melhor café da região.
A região em questão é a quadra do Leblon entre as ruas Almirante Guilhem e Carlos Góis, onde, comprovando os anos de pesquisas de demanda feitas pela Starbucks, em menos de seis meses foram abertas três novas cafeterias: um Armazém do Café, um Expresso Brasil (colados um no outro) e do outro lado da rua o C'est un Café.
O Armazém já é uma instituição carioca. Serve diversos tipos de grãos brasileiros e conseguiu criar uma pequena cultura cafeeira. O Expresso Brasil, para dizer de forma elegante, é o seu clone. E o C’est un Café quer ser diferente dos outros, mas começa com esse nome infeliz. Nos três pedi a mesma coisa, um café da casa e um bolinho ou um torta.
No Expresso Brasil, o que eles chamam de muffin de chocolate é um bolo massudo na forma de um muffin anabolizado, mas que nem de longe faz jus ao nome. Para piorar vem com uma calda de chocolate dessas de sorvete fazendo um desenho “moderno” no prato. O blend da casa é comum, não é ruim, mas não entusiasma. O ambiente é confortável mas o serviço é confuso, parecendo amador.
Ao lado, no Armazém do Café, a loja é apertada, mas a varanda é confortável e o serviço é bem mais eficiente. Pedi uma sugestão de doce para comer e me trouxeram um bolinho de amêndoas que, se não tivesse sido requentado no microondas, estaria muito melhor. O café da casa está apenas um pouco acima do comum, saboroso mas com um queimado no final. Como conheço outros cafés vendidos lá, fiquei decepcionado com este blend. Acho que não representa bem o nosso café.
O C’est un Café – devem achar que no Leblon todo mundo fala francês – começa com um problema de personalidade: a proposta do café, baseando-me no nome e no menu, parece ser um daqueles de Paris com sopas, croissants e tal, mas a loja parece de Nova Iorque, com tudo em cinza e preto. Vai entender. É a única que não tem variedade de grãos pra escolher, oferece apenas o blend da Café Florença, que para meu paladar é muito suave. A cheesecake que provei também não era nada demais. O serviço é bom, mas as mesas e cadeiras da varanda são muito, mas muito desconfortáveis.
Apesar de não ter ficado entusiasmado por nenhum dos três cafés, acho que o Armazém ainda está na frente do outros. O serviço, o ambiente e a possibilidade de provar grãos mais encorpados ao lado do pioneirismo e da sua tradição, fazem alguma diferença. O C’est un vem logo depois. Vale voltar lá, pois o menu não é comum e parece que eles querem fazer as coisas bem feitas. O Expresso Brasil fica em terceiro porque talvez ainda lhe falte encontrar seu caminho próprio – começando pelo tal muffin - e corrigir o aspecto bagunçado da loja e do atendimento.
O ritual do cafezinho é uma instituição nacional que agora tem que se entender com as novas cafeterias nacionais e importadas com mil variedades de grãos e preparações. Acho que a gente ganhou muito com a expansão do café expresso, mas o que no meu ponto de vista não pode acontecer, é a transformação do ato trivial de tomar um cafezinho encostado no balcão, em um acontecimento ou experiência sensorial. Afinal, para nós que sempre tomamos café de verdade, um cafezinho é sempre um cafezinho, embora muita gente insista no contrário. Uma delas é o Ferran Adriá que, como se não bastasse ter metido o bedelho em absolutamente tudo que seja comestível, também acha que o cafezinho não evoluiu bastante e criou este aí da foto para ser tomado com colher. Na minha terra se chama mousse de café, mas ele diz que é o Espesso. Sem comentários.
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