Não é mole, não.

Ícones não nascem da noite para o dia, não são auto-proclamados e nem são eternos. Quantos deles nós mesmos criamos e hoje não passam de uma lembrança às vezes até ruim? Quando falamos de restaurantes então, a coisa fica ainda pior. Sobreviver nesse ramo não é fácil, a quantidade de casas que abrem e fecham é enorme, muitas vezes de forma inexplicável. Mas o contrário também acontece. Há restaurantes que estão aí há mais tempo do que eu de forma inexplicável, pelo menos para mim. Por isso, semana passada me dei a missão de tentar descobrir o porquê de um desses casos. Fui almoçar no La Mole.
Para quem não conhece, o La Mole é um dos mais tradicionais restaurantes da cidade. Está no mesmo endereço do Leblon há quase cinqüenta anos – e também em outros quatorze pontos pela cidade - servindo praticamente a mesma coisa desde sempre. É um ícone da cidade. Mas a imagem do La Mole não é exatamente de um bom restaurante, não parece ter nenhum atrativo nem o perfil de renovação permanente necessário nesse ramo. Um restaurante que parou no tempo. Alguns dizem até que retrocedeu. Mas como ele pode sobreviver tantos anos assim? O que ele tem que faz com que, mesmo abandonado pela crítica, longe dos holofotes e com baixa reputação, ele mais que sobreviva?
O La Mole do Leblon fica na Dias Ferreira, talvez na rua mais badaladamente gastronômica da cidade. Na varanda de frente para o vai-e-vem da rua, parecia que eu era o único carioca já que as outras mesas estavam ocupadas por famílias com crianças enforcando os dois dias entre os últimos feriados. Fui prontamente atendido pelo maitre que me ofereceu o couvert. Lembrei que o couvert do La Mole era famoso e que não poderia deixar de provar. Pedi um chope também. Tudo parecia perfeito, temperatura civilizada, varanda simpática e atendimento eficiente. Uma beleza.
Beleza também eram o couvert e o chope. Ótimos pães quentinhos, pizza branca e grissinis. Um pratinho com manteiga, patês, ovos de codorna e azeitonas, outro com salaminho cortado bem fininho e queijo. Ainda outro com lingüiça calabresa fatiada, um pouco gordurosa, mas ótima. Chope bem tirado com aquele colarinho necessário. Pensei que podia ficar por ali mesmo, couvert farto, exatamente como aqueles de antigamente (custa R$ 8,30), varanda ótima e bom chope. Mas claro que um restaurante não se mantém tanto tempo só com couvert, varanda e chope. Tive que pedir um prato. Foi quando percebi que minha voz da razão também tinha enforcado o feriado.
O cardápio chama a atenção pela variedade e pelos preços. As massas começam por pouco menos de R$ 15,00 e os peixes não chegam a R$ 30,00. Os pratos mais caros, como antigamente, levam camarão. É barato, ainda mais para os padrões do Leblon. Como o garçom me explicou e vi chegando nas mesas ao lado, os pratos dão para duas pessoas, no mínimo. Preferi não abusar da sorte, até agora tudo estava indo melhor que o esperado, e pedi um escalopinho acebolado com batatas fritas e quiche de queijo, o Escalopinho do Rio, por R$ 16,55. Coitado do Rio.
Não dá para negar, as porções – não há outro termo aqui – são fartas. Meu prato tinha dois belos escalopinhos, um pedaço de quiche, bastante batata frita e estava bem quente, parecia ter sido mesmo feito na hora. Mas a temperatura só escondia o sabor. As batatas, dessas industrializadas pré-fritas, começaram bem mas depois que esfriaram ficaram horríveis. A quiche parecia de borracha, chequei a pensar que não fosse de verdade, e o escalopinho, depois que esfriou o suficiente para eu conseguir comer, apesar de macio e no ponto tinha esse suposto molho acebolado que parecia azedo. Me arrependi de ter deixado levarem o couvert pois larguei tudo pela metade, exceto a quiche que voltou só com um pedacinho de borracha, perdão, queijo, faltando.
Achei melhor garantir a sobremesa na Colher de Pau e só pedi um café. Não deu outra, saudades do couvert de novo. Expresso quando é ruim é pior do que qualquer cafezinho de padaria. O total da conta, R$ 35,03 com 10% não assusta, mas sei onde comer bem melhor com esse dinheiro.
Talvez uma mesa grande, com muita gente dividindo pratos este valor possa cair bastante, aí, sem contar a comida, fica bom. Pode ser também que o forte sejam as pizzas e massas, mas o La Mole foi famoso nos anos setenta pela sua vitelinha tonné, então minha pedida de carne não pode ter sido tão errada assim.
Saí de lá resignado, minha empreitada tinha fracassado, não consegui descobrir o que fez o La Mole o que ele se tornou. Não é a comida, não pode ser só o preço, não pode ser só o couvert. Então não sei, o mistério para mim continua.
O que não é mistério é que a casa vive cheia nos finais de semana, tem 15 filiais no Rio, da zona norte à Barra, é referência em comemorações tipo dia dos pais e das mães e conseguiu sobreviver e crescer competindo com restaurantes a quilo em todo lugar.
De positivo devo dizer que a casa do Leblon tem a melhor varanda da Dias Ferreira, um couvert divertido e farto, cerveja gelada no balde e um atendimento eficiente. Se isso algumas vezes é suficiente para você, o La Mole é o lugar. Mas se é isso que faz um restaurante manter-se vivo e crescendo por tanto tempo, esqueça o que dizem os críticos sobre qualquer restaurante, eles não entendem nada. Como eu também não entendi.

Comentários

Roberta Malta disse…
Há tempos não vou ao La Mole, mas já fui muito. O couvert, que pelo visto continua o mesmo, era ótimo. Destaque pro mimi pão almofadinha sempre quentinho e pra calabresa acebolada. Lembro de gostar do escalopinho ao limão com purê de batatas , ok pelo menos prum paladar infantil.
Mas acho que o segredo do sucesso de lá são, de fato, os preços baixos, em boa localização, com um padrão que, mais ou menos, se mantém e que, portanto, acolhe famílias inteiras de classe média. É bacana pra ir com 2, 3 filhos, marido e sogra. Acomida é aquela mesma, velha conhecida. As crianças não reclamam, dividem o prato e gasta-se pouco.
Agora escalopinho acebolado, com quiche e mais batata frita??? Eu não sei se parabenizo eles ou vc pela ousadia! Paco? Como teste foi perfeito, mas toda razão em garantir a sobremese no Colher de Pau!
Ah, na minha época era café de coador, delicia, com aquele gostinho de requentado, sabe? Prefiro.
beijo.
Barista disse…
como bom tijucano que fui, posso assegurar o La Mole é o restaurante numero um dos tijucanos principalmente o da Marques de valença.
em datas festivas é pra lá que meus pais ainda vão.
como o couvert do La mole é uma instituição, nao abro mao de degusta-lo. fora ele, o resto do cardapio virou fast food tupiniquim!
MD
Jotabe disse…
Tenho boas lembranças do La Mole,faz muito tempo que não apareço por lá.
Esses restaurantes que atravessam os tempos com o mesmo cardápio quilométrico são mesmo um mistério.
Difícil de entender.
Abraços
Kats disse…
Acho que foi o primeiro restô carioca que conheci. Ia lá para comer estrogonofe, mas isso há alguns muitos e longos anos, hehe. Era o máximo do 'chiquê' para este então jovem paulista desbravando a cidade maravilhosa. Direto do túnel do tempo!!!
Laura disse…
Caramba, quem já entrou na cozinha do La Mole não come lá nem por 1 milhão de dólares.
Quando era pequena ia muito lá com minha família, mas depois que conheci os bastidores do restaurante, nem pensar. Cuidado, gente, com comido não dá para arriscar.
Cardápios quilométricos geralmente significam alimentos mal conservados, e por tempo demais. Além de comidas preparadas em panelas sujas, e cozinheiros irritados.
O La Mole é, inclusive, visitado pelos alunos de gastronomia da universidade Estácio de Sá, em uma aula que serve para apontarem falhas e erros na dinâmica da cozinha. Perigo!
Paco Torras disse…
Não concordo com a Laura que tamanho do menu tenha a ver com panelas sujas ou cozinheiros irritados. Acho também que essa imagem de cozinhas imundas em restaurantes decentes é um estereótipo que cada vez existe menos.
Paula disse…
Bom, lamento muito pela sua experiência, mas eu ADORO o La Mole! Tenho 24 anos, realmente sei que não é um restaurante da moda, nem nada, mas acho a comida muito boa!
Inclusive esse prato, Escalopinho do Rio, é o meu preferido.
Moro em Botafogo e freqüento vááários La Mole pela cidade, o daqui, do Rio Sul, do Iguatemi, do Leblon, da Barra, do Norte Shopping, de Niterói, e em todos comi um prato muito gostoso. O quiche então é tudo na vida! Os meus sempre derreteram na boca, não parecia nada com plástico...
Realmente as batatas fritas eu não gosto muito, mas pq não gosto de batata frita mesmo. Mas sei que pode mudar por purê ou por outro quiche, dependendo do maitre, pq eu já fiz isso algumas vezes.
Enfim, sempre como lá com a minha mãe e saio satisfeitíssima! É comer bem e pagar pouco. Nem se compara ao preço dos outros restaurantes.
Ao contrário de vc, que se pergunta como pode ainda sobreviver um restaurante sem fama, atualização, etc, sempre me perguntei como pode um restaurante com a comida tão farta e gostosa não cair na "boca do povo"!
Adoro o La Mole e ponto!!!! rs
Anônimo disse…
esperei mais de uma hora pra entregarem a comida e tive que cancelar um pedido por que estava em falta! que merda!

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