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24.4.06

Flash-Flash!

Na ânsia de lembrar dos meus restaurantes de sempre em Barcelona, acabei me esquecendo de um que talvez seja o mais representativo desse paradoxo entre a revolução gastronômica e o tradicionalismo sem grandes pretensões que acontece nas cozinhas da cidade. Para tentar compensar, o post do esquecido vai com foto e tudo.
Se eu tivesse que escolher "o" prato mais típico da Catalunha, aquele que vc encontra em qualquer lugar, que todo mundo faz em casa e que é facílimo, esse prato sem dúvida seria a tortilha. Em qualquer buteco que você entre, pode pedir pela de batatas que é a mais tradicional. Durante anos eu acordava com o barulho da minha vizinha batendo os ovos para seu filho levar uma para a escola. Enquanto aqui a primeira coisa que se aprende a fazer na cozinha é arroz ou ovo frito, na Espanha o que se aprende é a fazer tortilhas. Literalmente qualquer um sabe fazer.

O Flash-Flash não tem nada a ver com nenhum outro restaurante que conheço em Barcelona. Não serve carnes grelhadas nem mariscos, sua decoração foge ao padrão clássico e não muda desde a inauguração em 1970. E, por mais incrível que possa parecer, faz sucesso há quase quarenta anos servindo exatamente tortilhas....

São mais de 70 no cardápio ao lado de alguns hamburgeres (que dizem ser muito bons, nunca provei) e saladas. Há quarenta anos também a decoração no estilo anos 70 (deve ter sido moderníssima no seu tempo) é a mesma - hoje é cult. Nas paredes há diversas pinturas da Twiggy fotografando os clientes e no lugar do flash da câmara que ela usa, estão as luminárias que iluminam o ambiente. Já foi point da esquerda festiva barcelonesa e ainda é local de encontro de designers, arquitetos e cineastas.
Desnecessário dizer que as tortilhas de todos os tipos são deliciosas e suculentas como devem ser. Minhas favoritas são as de batata com bacon e cebola e a de sobrassada. Outras que fazem sucesso são as de frango com bechamel e a de alcachofra. Frequento o local desde os meus quatro anos e posso garantir que se existe algum exemplo de como uma casa simples pode mais que sobreviver, tornar-se um ícone, ofereçendo o "arroz com feijão", essa casa é o Flash-Flash. Vida longa.

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21.4.06

Quais são os de sempre?

Bem, no post de ontem falei que tinha ido em um monte de restaurantes que desde sempre, pelo menos para mim que tenho quarenta anos, estiveram onde estão, servindo a mesma cozinha simples e tradicional de Barcelona e que no meu entender são os que sustentam a fama de bem comer da cidade. Vamos a alguns deles:

El Glop – em catalão quer dizer “o gole” mas não é um bar. É um restaurante que está encravado no meio do bairro de Grácia – o mais tradicional da cidade - há mais de 25 anos. Come-se cozinha tradicional catalana num ambiente muito simpático com a cozinha, e principalmente a grelha à vista dos fregueses. Se é que há alguma especialidade, estas seriam o coelho e as alcachofras grelhadas e os caracóis “na lata”. Em princípio come-se também calçots o ano todo mas que seguramente serão melhores até o começo da primavera. Se você não tiver outra oportunidade de comer calçots vá lá. Mas vá no original de Grácia e não nas filiais que foram abertas no eixample.

Maria Castaña – um dos mais tradicionais bares de tapas da cidade, deve ter mais de trinta anos no mesmo local, fica numa região pouco freqüentada por turistas mas a visita vale para comer pão com tomate – o pão vem diariamente da Galícia – que minha mulher elegeu como o melhor que ela comeu na semana, e olha que ela comeu bastante. Lá oferecem também tapas variadas das quais destaco o pastel de tortilha, tortilhas de vários sabores empilhadas e servidas como uma fatia de bolo, a escalibada, pimentão berinjela e cebola grelhados e a alcachofra. Para arrematar um pouco de queijo manchego curado e uma copa de fino. O garçom mais novo tem 12 anos de casa e o mais velho está lá desde que eu conheci a casa em 1992. O ambiente não tem nada de atrativo, pelo contrário; perdeu todo o charme depois de uma reforma em 1994 mas a comida é de primeira.

L’Olivé – com pouco mais de 20 anos, é um belo restaurante de comida catalana tradicional mais refinada um pouquinho. Ambiente elegante mas sem exageros. Comida excelente. Fomos lá com um grupo de brasileiros recém chegados e quase fomos expulsos tamanha algazarra fizemos com as surpresas de sabores e pratos que provamos.

El Mussol – O caçula da lista está a pouco mais de dez anos na Av. Diagonal. Tem um estilo parecido com o El Glop, cozinha catalana, grelha logo na entrada, qualidade nos produtos, etc. Na saída você pode comprar grande parte dos embutidos e queijos que comeu. Ótimo vinho da casa. Recomendo três pratos: Mungetas amb butifarra – feijão branco sem caldo com uma lingüiça local – esqueixada de bacalhau – quase um carpaccio do peixe - e o prato de legumes grelhados que pela sua simplicidade e riqueza de sabores resume bem o que penso sobre a cozinha catalana.

Els Quatre Gats – Inaugurado em 1897, é talvez o mais tradicional restaurante da cidade. Levava meus amigos lá mais pela beleza do edifício e do bar do que pela comida. Foi freqüentado por artistas e intelectuais no início do século XX como Picasso e Gaudí mas hoje, com a cidade permanentemente tomada por turistas, é mais uma atração do que qualquer outra coisa. Vale a visita e no mínimo uma copa de cava no bar da entrada.

Botafumeiro – é “o” lugar de Barcelona para comer mariscos. Está há quase quarenta anos no mesmo lugar e o freqüentamos desde que me entendo por gente por que é em frente à antiga casa dos meus tios. Tem um bar enorme onde você pode comer o mesmo que no salão. Em matéria de preços está dois degraus acima dos outros restaurantes, mas plenamente justificado pela frescura e qualidade do que serve.

Se você tiver a oportunidade de visitar qualquer um desses restaurantes vai entender o que falei sobre simplicidade, qualidade e fidelidade. Vai ver que em todos eles você vai encontrar uma cozinha mais do que correta, extremamente saborosa e feita com pouquíssimos ingredientes e técnicas bem rudimentares. Neles todos a qualidade do produto e a primazia do conteúdo sobre a forma fazem com que existam há tantos anos e que tenham potencial para sobreviverem por muito tempo mais.

Como copo vazio também não para em pé, tenho dois bares completamente diferentes que merecem uma visita:

Boadas – está há 75 anos na pequena esquina do começo das Ramblas. Até onde sei ainda é tocado pela Sra. Boadas que faz Dry Martinis atrás do balcão. Mínimo e sem janelas, não oferece nada mais que canapés para acompanhar o álcool. Ferve depois da sete da noite e como tudo na cidade depois de 1992 está sempre cheio de turistas. É o favorito do meu amigo Kaleco que foi lá comigo em 96 e agora é freguês.

Mirablau – em geral é minha parada número um na cidade. Já fui lá de táxi direto do aeroporto só para admirar o visual do entardecer. No alto da cidade é um bar moderno que funciona como discoteca depois das onze da noite. Tem a vista mais deslumbrante da cidade, por isso vale a pena chegar mais cedo e pegar um lugar na frente do janelão. Um belo programa é subir até lá no Tramvia Blau, um bonde azul que você pode pegar no alto do Carrer Balmes.

No próximo post falo sobre calçots, talvez a comida mais rudimentar, saborosa e festiva que já provei.

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20.4.06

Comendo o de sempre

Que a cozinha espanhola e principalmente a da Catalunha estão na moda ninguém discute. Mas tenho visto que nessa matéria a gente aqui no Brasil só tem noticias sobre as últimas invenções dos vários ferrans adriás da vez, com pratos e técnicas mirabolantes. Às vezes chegam também notícias sobre a cozinha mediterrânea e seus vinhos, azeites, peixes e embutidos que desafiam nutricionistas, dietas e conceitos de “boa” alimentação. Pouco se fala da cozinha tradicional, daquela que resiste aos ataques da moda e da globalização e que, ao contrário do que possa parecer, não só sobrevive como aprofunda suas raízes no dia a dia dos catalães.

Minha primeira vez em Barcelona foi aos quatro anos quando meus pais me levaram para conhecer meu avô. Já perdi a conta de quantas vezes voltei e no início dos anos noventa morei lá por três anos, bem no meio da revolução olímpica. Vivi intensamente sua transformação de uma cidade pacata em uma metrópole internacional.
Mas só na semana passada entendi um detalhe evidente nessa transformação que por ser tão simples e não me causar nenhum impacto, não tinha percebido antes: o que faz seus moradores saírem de casa para comer não são os novos restaurantes nem os novos pratos nem as refeições que são tratadas como eventos. O que sustenta e realmente diferencia a gastronomia da Catalunha são restaurantes que, com pouca ou nenhuma pretensão de revolucionarem nada, estão no mesmo lugar servindo a mesma comida desde sempre.

Nos dias que passei na cidade me dediquei a apresentar à minha mulher alguns restaurantes que eu sempre fui com minha família e os que eu freqüentava quando morava lá. A ficha caiu quando ela comentou que nenhum deles tinha fechado as portas, que todos ainda existiam depois de tantos anos. Comigo o espanto foi diferente; em todos eles comemos o que eu sempre comi, nem precisei olhar os cardápios. O pior é que com uma ou duas exceções, nenhum deles pode ser considerado um restaurante tradicional. São apenas casas que fazem as coisas simples, bem feitas e por isso contam com a fidelidade da sua clientela. E bota fidelidade nisso.

A Espanha é o país da Europa que possui mais bares e restaurantes per capita. A oferta é enorme e por isso mesmo seria de se esperar uma grande rotatividade de locais, um abre-e–fecha de acordo com a velocidade das solicitações do mercado. Mas ao que parece, o mercado de verdade não tem essa velocidade toda e, pelo menos para mim, é exatamente esse aparente paradoxo um dos grandes atrativos gastronômicos da cidade.

Acho ótima essa ebulição gastronômica catalã que nos é vendida aqui, como se em qualquer restaurante a gente fosse encontrar espumas, ares e picolés de açafrão para comer. Penso que, se as pessoas vão à Barcelona para provar a contemporaneidade da sua culinária, grupo no qual ainda me incluo, acabam mesmo impressionadas e extasiadas é com o que sempre esteve ali. Acho que as lembranças de pratos e sabores indeléveis que os visitantes vão levar serão antes as da tradição do que as da modernidade. Isso só é possível por que ao contrário do que acontece numa cidade como Nova York, onde os restaurantes são obrigados a se re-inventar a cada estação para sobreviver, em Barcelona os catalães exigem exatamente o contrário das casas que freqüentam. Exigem que as coisas permaneçam exatamente como são. Dessa forma, os novos chefs catalães são mais rebeldes e revolucionários que os anarquistas históricos. Jogaram para o alto esta solicitação do mercado, a simplicidade quase rústica da culinária praticada até então e, somando os ensinamentos da cozinha mais refinada do País Basco, trouxeram literalmente novos ares à gastronomia da região.

Imagino que a enorme visibilidade que esta nova gastronomia da Catalunha ganhou, representada apenas por uma ou duas dúzias de restaurantes, tenha como uma de suas grandes conseqüências trazer mais gente para provar a velha cozinha da região. Numa cidade cosmopolita como Barcelona, onde é normal escutar três ou quatro idiomas diferentes numa esquina, acho que quem prova sua variada culinária, volta para casa falando mesmo é de suquets, pernils, fideuás, calçots e esqueixadas, além do onipresente pão com tomate, que sempre existiram, que sempre foram feitos da mesma maneira, com os mesmo riquíssimos sabores, nos mesmos lugares. Mas como notícia velha não é notícia, a gente aqui continua mesmo a achar que lá é tudo novidade o que faz a surpresa com a tradição ainda mais intensa.

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2.4.06

Em viagem

Estive ausente por que estou viajando hoje para Barcelona e Paris e os preparativos sempre tomam mais tempo do que imagino. Já conheço muito bem a primeira mas fazem anos que não vou na segunda cidade. Minha intenção única nesta viagem é comer, se tiver um museu ou uma atração bacana entre o restaurante do almoço e o do jantar, eu entro :-)
Enquanto isso, espero ter tempo também de postar alguma coisa "on the road", deixo aqui uma historinha minha sobre comer e viajar que foi publicada originalmente na revista Saborear:

O Dissidente Gourmet

Polvani. Quem não se lembra das viagens que a Polvani promovia de ônibus pela Europa? Eram hordas de turistas brasileiros percorrendo as principais cidades do velho continente. Dez cidades, doze dias, pensão completa. Você não tinha nem que se preocupar com o que ia comer.“Hoje é quarta-feira? Então estamos em Paris”. Era uma piadinha corrente na época.

Nesses grupos de turistas há sempre os rebeldes, os que se insurgem contra os roteiros impostos e se recusam a seguir as bandeirinhas dos guias nos museus e monumentos mais concorridos.

Meu amigo Pedro, era um desses. Foi à Europa com objetivos muito diferentes dos de sua mulher, que queria conhecer todos os museus e monumentos. Desde o primeiro dia em Barcelona, quando a turma da excursão foi para o Museu Picasso e a Sagrada Família, Pedro apontou na direção do Set Portes, o mais tradicional restaurante da cidade. Para ele só interessava provar os caracóis, fideuás e tortillas, e tomar os priorats e cavas da região. Enquanto outros tinham nas mãos os mapas e guias das cidades, ele saía do hotel com suas listinhas do que não poderia deixar de comer e beber, feita com a ajuda de amigos espanhóis, franceses e italianos que tinha no Brasil.

Quando o grupo chegou na Itália, ninguém mais perguntava onde Pedro estava quando visitavam o Coliseu ou porque ele não os acompanhava ao Vaticano.

- O Pedro pirou, gente. – Eva já tinha desistido de querer o marido ao seu lado. – Ele só pensa em provar tudo o que está nas listinhas dele. Não sabe o que está perdendo!

Mas no final do dia era ele quem prendia as atenções do grupo, descrevendo os antipasti e os vinhos que tinha provado. Seu prazer era tanto que parecia se divertir mais que os outros.

A rebeldia gastronômica de Pedro ficou ainda mais fascinante quando ele, explicando uma deliciosa alcachofra com alho e hortelã que provou em um dos diversos restaurantes visitados naquele dia, disse que tinha almoçado com a Rita Pavone na mesa ao lado. Como prova, mostrou o autógrafo com um beijo no guardanapo do Ristorante Il Cantuccio.

- Esse mundo é muito pequeno mesmo! Imagine encontrar com a Rita Pavone na única vez que você vem à Itália! – Podia se notar uma ponta de inveja no comentário de Olavo.

No dia seguinte, Pedro desceu as escadas do hotel lendo sua listinha, o dia seria dedicado a provar frutos do mar, quando deu de cara com Olavo no saguão.
- Ué, Olavão, não foi visitar as Catacumbas com o resto da turma?
- Porra, Pedro, você acha melhor ver um monte de túneis escuros cheios de esqueletos ou comer bem correndo o risco de encontrar a Rita Pavone de novo? – Olavo abraçou Pedro e caminharam na direção da porta. – Qual é o cardápio do dia?
- Frutos do mar! – bradou Pedro levantando o braço com a lista na mão, feliz em ter companhia na sua jornada.
E saíram como dois cavaleiros a desbravar o mundo da culinária italiana.

A última parada do dia foi o bar na cobertura do Hotel Éden, sentaram-se no balcão e pediram mexilhões ao vapor e um Schiopetto Pinot Grigio, a quinta garrafa de vinho do dia. Por isso mesmo Olavo achou que delirava quando viu quem estava sentada dois bancos depois deles com um prosecco na mão. Apertou o braço de Pedro e apontou com o nariz. A voz não saía. Era Sophia Loren.
Os dois embasbacados admiraram a musa até que ela levantou-se, olhou para eles, deu um sorriso e foi embora.
- Coliseu poooorrranenhuma!! Isso aí é que é monumento! – Olavo não se conteve e abraçou Pedro agradecendo o passeio.- Não te largo mais de jeito nenhum!

No hall do hotel ninguém queria saber de comentar sobre as Catacumbas ou a Via Apia. Todos queriam saber o que Pedro e Olavo tinham comido e quem tinham encontrado.

O sucesso dos pratos, acompanhados de Rita Pavone e Sophia Loren foi tão grande que o grupo de gourmets dissidentes aumentava cada dia. Era gente que se deliciava com as comidas do dia anterior e preferia o tour gastronômico de Pedro a ser mais um cordeirinho nos rebanhos de turistas que inundavam os museus das cidades por onde passavam.

O grupo rebelde já era maior que o oficial no último dia em Paris. As duas turmas se cruzaram por acaso na Place de la Madeleine e Eva, que ainda seguia no grupo oficial e ressentida com o marido por ter esvaziado a excursão, pode ouvi-lo dizendo:
- Agora vamos ao Goumard comer a melhor bouillabaisse de Paris! – Ele não tinha uma bandeirinha mas levantava o braço e apontava na direção que todos seguiam. — E depois vamos provar os macarons do Ladurée.!

Foi a deixa que Eva precisava. Enquanto os grupos se cruzavam, ela discretamente deu meia volta e sem que o guia a visse, misturou-se aos dissidentes gastronômicos no caminho de uma sopa de peixe imaginando que além da bouillabaisse, ainda poderia ter a sorte de encontrar o Alain Delon por lá.

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