A esquina e o livro - Parte 3

Esta é a terceira parte da história de uma food novel que voltou do passado. Se você não leu os capitulos anteriores, clique aqui.
A segunda parte acabou assim:
"Talvez o leitor considere isso tudo um exagero, tratar a procura por um livro que não tem nada demais como uma caçada e valorizar seu achado como se fosse a conquista de uma medalha olímpica, ou uma descoberta arqueológica. Mas ao final dessa história espero que, se essa impressão existe, ela seja completamente eliminada, pois o que aconteceu depois que abri o livro justifica plenamente as expectativas que criei."
E continua assim:

A esquina e o livro
Parte 3
Vinte anos atrás quando me emprestaram, “Nem só de Caviar...”, já era um livro bem usado, com as orelhas rasgadas, a ortografia desatualizada, e que já tinha vendido mais de um milhão de exemplares, coisa que antes dos livros de auto-ajuda e de Paulo Coelho, era uma marca considerável. Lembro vagamente que o livro não era do amigo que me emprestou, era um re-empréstimo, se existe esta expressão, de alguém com quem eu não tinha tanta intimidade assim.
Naquela época Cláudia e eu éramos colegas de faculdade e vivíamos um na casa do outro fazendo trabalhos, estudando e vagabundeando como todo universitário que se preza.
Depois de formado me mudei para o exterior e fiquei com minhas coisas metade lá e metade aqui sendo que geralmente uma coisa que eu precisava aqui estava na metade de lá e vice-versa. Quando voltei para o Brasil, por um tempo tudo continuou meio espalhado entre amigos e parentes. Com Cláudia, já não tinha mais contato algum.
Nesses quase dez anos que passamos separados, nunca nos esbarramos, nunca a vi passar na rua, não sabia o que ela fazia da vida, tampouco tínhamos amigos em comum. Enfim, não tínhamos a menor idéia do que se passava com o outro até o dia em que esbarramos numa esquina. Agora que estamos juntos de novo, podemos ver que se as coisas não tivessem acontecido exatamente assim, não teria a menor graça.
Finalmente me recostei no sofá, abri o livro numa página qualquer para ver se lendo um trecho a trama surgiria automaticamente na minha cabeça. Não aconteceu. Não me lembrava de absolutamente nada. Alguma nesga de história emergiu quando li a primeira receita, mas era muito mais uma memória gastronômica que literária. Mas o melhor de tudo foi que o temido anticlímax não aconteceu. Já me deliciava com a narrativa bem humorada de Simmel (quem disse que alemão não tem bom humor?) e com as histórias do agente secreto Thomas Lieven quando Cláudia entrou em casa e me viu lendo com um sorriso no rosto. E ainda na porta, devolvendo o sorriso, disse:
- Eu já tinha visto gente esperar por um livro, mas um livro esperar por alguém, nunca.
Ela se aproximou, sentou ao meu lado e me abraçou. Nós já achávamos essa história impressionante o suficiente para ser escrita, mas nenhum dos dois sabia que o desfecho era o queainda  faltava para torná-la única.
- Nem sei bem o que esse livro está fazendo aqui. Tem um nome escrito nele, deve ser da dona, mas eu não tenho a menor idéia de quem seja ela.
Curioso, voltei até a primeira página e li as únicas palavras no livro, que não tinham sido escritas pelo autor:
- Rosa de Lourdes de A. Caldeira - Li silenciosamente. Reli em voz alta para que eu mesmo ouvisse: - Rita Caldeira.
- Pois é, não tenho a menor idéia de quem seja essa mulher. - Ela se recostou no sofá enquanto eu me levantava.
- Mas eu sei quem ela é. - Minha voz quase não saiu.
Dizer que eu estava lívido seria um exagero, mas a expressão no meu rosto deixou evidente o que estava acontecendo.
- Co-mo assim? - Ela se inclinou para frente e franziu a testa - Como você conhece a dona de um livro que está na minha casa há não sei quanto tempo?

Continua...
A história começa aqui.

Comentários

Puxa, que covardia esse "continua..." a essa altura da estória! Quer saber o resto!
PF disse…
Até eu, que já conheço a história, quero ler o fim de novo!!!! Isso é tortura!

Abraço,
PF

PS: se não me engano no "Nem só de caviar..." tem uma receita de banana com presunto e molho branco (!!!!) que é sensacional. Faz assim:
1. Descarcar bananas prata bem maduras (quando a casca já está vários pontinhos pretos);
2. Para cada banana, untar uma fatia de presunto magro e fino com bastante mostarda e enrolar na banana (a mostarda fica por dentro, entre o presunto e a banana);
3. Dipor as bananas em uma travessa e cobrir com bastante molho branco (mas do bem feito, com raspas de noz moscada e etc, prá ficar bem saboroso);
4. Colocar no forno. Quando o molho branco estiver borbulhando pode tirar.

Basta comer com arroz branco. É fenomenal. Não tem ninguém que já tenha comido lá em casa que não tenha feito cara de nojo antes de comer e achado uma delícia na primeira garfada. Calcular umas 2 bananas por pessoa. Se agradar o paladar, 2 serão pouco. Geralmente o pessoal lá em casa come umas 3 ou 4 cada.

Experimentem e depois avisem ao Paco. Paco, não vale falar mal, já que vc não come banana e nunca experimentou!

PS2: pensando bem, acho que a receita não é desse livro, não. Mas a minha mãe sempre me disse que tinha lido nele.
Paco Torras disse…
é muita folga colocar uma receita dessas aqui no meu bistrozinho!
Juliana disse…
ainda nao acabou? afe!

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