Meus restaurantes no Rio
Tenho a sorte de ter um pai que, talvez por não saber nem
fritar um ovo, adora comer fora. Amor esse que deve ter sido transferido para
mim já no DNA, pois desde que me entendo por gente me pego procurando por mesas
em restaurantes, e bares também, aonde quer que eu vá.
E já passando dos cinquenta vejo que tenho a vida marcada por
restaurantes onde meu pai me levou ou eu mesmo escolhi. Não tem nada a ver com
a comida que eles serviam, na grande maioria das vezes não se trata de uma
marca gastronômica, mas dessa experiência que sempre foi natural e que hoje
tantos restaurantes tentam nos impor. São restaurantes que me marcaram menos pelo
sabor e mais pelas pessoas, pelas descobertas e pelos momentos que vivi e vivo
neles.
A primeira memória de restaurante que tenho é a churrascaria
Parque Recreio no Flamengo onde
comíamos filé mignon e maminha na brasa acompanhados de muita batata frita e
farofa. A casa foi engolida pelas obras do metrô mas espalhou pela cidade
garçons e mâitres que me viram crescer em outras mesas. Toninho, Zé, Lima e
Chico (que hoje trabalha no Álvaro´s) são tipos que marcaram minha infância. Lembro
que um dia o restaurante fechou para que a equipe pudesse servir no casamento
do filho de um dos mais antigos e fiéis clientes da casa. Eu estava lá e era
como se estivesse em casa com os garçons me chamando pelo nome e vice-versa.
Quando queríamos algo mais sofisticado, meu pai nos levava
no falecido Castelo da Lagoa que
funcionava numa casa de pedras decorada com gravuras do Juarez Machado pelas
paredes. Lembro bem que os pratos eram servidos à francesa e que tinha uma
ótima feijoada aos sábados. Sobreviveu durante muitos anos nas mãos do Chico
Recarey, o mesmo dono da Pizzaria Guanabara e um dos mais tradicionais donos de
restaurantes do Rio no século passado.
Depois que a Parque Recreio fechou, parte da clientela e da
equipe migrou para a Carreta em Ipanema
que conseguiu manter o espírito da casa do Flamengo. O corredor da entrada terminava
na churrasqueira antes do salão onde comíamos as mesmas coisas que eram
servidas na Recreio. Na época ainda não existiam cortes como picanha, fraldinha
ou cupim. Outra churrascaria que frequentei bastante foi a Jardim na Rua República do Peru em Copacabana. Acho que as três
eram tão parecidas em cardápio, atendimento e ambiente que que acabei fazendo
um mash-up delas na memória.
Outro restaurante que faz parte da minha história pelas
mesas do Rio é o Mistura Fina da Lagoa
onde sempre comia a famosa feijoada com feijões branco e preto que o Pedro
Paulo promovia aos sábados. De lá saiu o Paulo que hoje é sommelier na Casa
Carandaí. O Mistura era o maior alto astral e uma vez promoveu um concurso de Dry Martinis inesquecível.
Eu tinha conta mesmo era no Manolo´s no Leblon, onde hoje está uma hamburgueria.... Do mesmo
dono e com o mesmo estilo de comida do Álvaro’s, era onde eu com meus vinte
anos batia ponto semanalmente para comer uma deliciosa capa de filé ou o
estrogonofe. Sentava e nem precisava pedir ao Chico minha caipivodka de limão,
coada com açúcar e um pastel de queijo com cebola. Nessa mesma época de
estudante frequentava o Madrugada,
do Rodolfo Bottino, na Rua Sorocaba em Botafogo. Ele era uma simpatia – sempre oferecia
uma garrafa de espumante nos aniversários - a massa era ótima e a casa fechava
tarde. Não precisávamos muito mais do que isso.
Em meados dos anos oitenta tive a sorte de estagiar por três
anos num escritório na Rua Rita Ludolf, no Leblon, mesma rua do talvez mais
carioca dos restaurantes, o Gula-Gula.
Ali foi o primeiro, o Gulinha, que o Fernando de Lamare abriu e onde ele me
olhava da cozinha perguntando se a salada de batata frita e a quiche de cebola
estavam boas. Hoje continuo vizinho e cliente do Gula que se tornou um grande negócio,
com vários endereços, mantendo o espírito e muito da casa original.
Outro que frequento há quase trinta anos e que recentemente
mudou de endereço é o Botequim que agora
está no começo da mesma Rua Visconde de Caravelas em Botafogo. Outro dia fui me
despedir do antigo endereço e encontrei o Ivan Oest, um dos donos da casa hoje
tocada pelos filhos e meu professor na Santa Úrsula.
Vivíssimo também está o Luigi’s
perto da Praça São Salvador, outro que frequento desde o tempo em que o
Alessandro Cucco, hoje sócio da Osteria del Angolo, tirava as pizzas do forno e
servia as mesas. Meus pratos favoritos, o filetto pepe verde e o capeletti de
gorgonzola, nunca saíram do cardápio. Restaurante super familiar, sem nenhuma
afetação, há mais de três décadas por aqui praticamente sem nenhuma mudança.



Essa dúzia de restaurantes que lembrei não são
só os lugares onde eu cresci, também representam um viés carioca da cada época. Além disso, alguns
deles nunca se preocuparam em mudar seus cardápios mostrando que o gosto pela mesa
é sim transmitido de pai para filho, senão pelo DNA, pela experiência de levar
a família numa casa e ela ser acolhida pelo ambiente, pelo atendimento e pelo
cardápio certo. E, para quem gosta de comer, quando esse conjunto funciona,
deixa marcas.
Claro que não esqueci de lugares como Esquilos, Fox, Alt
Munchen, Pantagruel, Quadrifoglio, Guimas, Alho e Óleo, Majórica, Ettore,
Cantina Bolognesa, Mama Rosa, Tarantella, Bozó e Lamas que também fazem parte não
só da minha história entre mesas e pratos, mas também da história dessa cidade
onde, dizem, come-se mal. Pfffff.
Marcadores: Comendo e bebendo fora


1 Comments:
Muito bom, Paco... não conhecia seu Blog... vou acompanhar agora. abs
Froes
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