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23.8.06

Repetindo o único

Hoje em dia, todos os grandes restaurantes gastronômicos do mundo têm seus menus degustação. Qualquer um que tenha tempo e dinheiro pode viajar pelo mundo se deliciando com refeições com 10, 15, 20 pratos de autor. Seja a Clotilde no El Bulli, ou meu amigo Paulo Fernando no DOM, quase todos voltam maravilhados com a experiência. Alguma falha aqui, um detalhe ali mas no geral são horas inesquecíveis. Mas quantas vezes na vida você consegue participar de um momento assim? Aqui no Rio tem uma turma que há 25 anos faz isso todo mês, e ontem eu participei de um desses eventos.
Claro que há diferenças importantes, o almoço - é sempre um almoço durante a semana - não dura seis horas, não há uma quantidade infindável de pratos - ontem foram só seis - e até agora o Ferran Adriá não apareceu, mas os Companheiros da Boa Mesa se encontram todo mês nos melhores restaurantes da cidade onde seus chefs preparam menus especiais para os ágapes do grupo. Funciona assim: cada mês um dos companheiros fica responsável por organizar o almoço. Ele escolhe o restaurante, cria o menu com o chef, combina os vinhos (tá bom, harmoniza os vinhos) com ajuda de um sommelier, acerta o preço e convida os demais para provar seu almoço. O custo é dividido entre todos.
Ontem fui com mais trinta e tantos companheiros almoçar no Zuka, um restaurante que seria classificado como contemporâneo, com uma chef jovem, a Ludmila Soeiro, e um menu com muitos grelhados combinados com muitos ingredientes, temperos e criatividade. O almoço foi organizado por uma jornalista carioca e, se foi clássico em oferecer frutos do mar, massas e carnes, foi bastante ousado nos sabores.
Como já disse, foram seis pratos; duas entradas, dois principais e duas sobremesas acompanhados por champanhe, vinhos branco, rose e tintos e um branco doce no final. Já dá para ver que com seis pratos e seis vinhos, os Companheiros não não brincam em serviço. Mas chega de couvert, vamos ver o que eu provei.

A primeira entrada foi um "Atum Semi Cru com Coalhada Seca e Raiz Forte, Pita Crocante" ótimo. A coalhada com raiz forte foi uma combinação muito feliz – parece um hummus de raiz-forte - que ficou perfeita com um atum no ponto, semi-cru. O pão árabe deu o croc que faltava no prato. Um riesling chileno escoltou muito bem, embora alguns tenham torcido o nariz. Eu não encontrei defeito.

Depois, uma ousadia: "Polvo ao vinagrete de Parma". Ousado por parte da anfitriã porque muita gente não encara um polvo nem no prato, e ousado pelo lado da cozinha porque convenhamos que fazer trinta e tantos pratos de polvo saírem no ponto certo ao mesmo tempo não é nada simples. Ficar cozido demais ou borrachudo é fácil. Eu adoro polvo que com o vinagrete de parma crocante e balsâmico estava muito bom. O vinho foi para mim uma grande boa surpresa, La Flor de Pulenta Rosê 2004. Embora não entenda nada de vinhos, adoro os rosés e este tem uma cor mais intensa e até algum corpo. Os entendidos disseram que ele harmonizaria melhor com o atum do que com o polvo. Mais uma vez eu não encontrei defeito, adorei o polvo, o vinho e principalmente o polvo com o vinho.

O terceiro prato foi o único que talvez tenha destoado um pouco. O "Risotto de Penne , Paleta de Cordeiro Desfiada, Caprino Romano e Crisp de Hortelã" é uma ótima idéia para fugir do risoto de arbório. Imagino que a preparação seja parecida, só que ao invés do arroz foi usado um penne com a metade do tamanho normal. Onde achei que o prato escorregou foi na hortelã, não por estar muito presente, dominando o prato, mas porque seu sabor parecia descolar-se dos outros. Eu teria deixado a ousadia somente no penne e usado um tradicionalíssimo alecrim. Foi uma opinião comum dos meus vizinhos. Inclusive assim, o tinto da Toscana teria encaixado melhor. O prato estava muito bom, mas a expectativa, que tinha subido com os dois primeiros, não foi atendida.

Antes das sobremesas ainda comemos uma "Vitela com Crosta de Funghi Porccini, Batata Doce Assada e Grana Padano e Redução perfumada com Pimentas do Mundo". Um nome longo para um prato com muitos sabores. Tenho que dizer que o que mais gostei aqui foi da redução com pimentas do mundo. Sabores de ervas e picantes numa calda que ainda tinha algum doce no final. Muito interessante sentir sabores e intensidades das diferentes pimentas na boca. A vitela não me entusiasmou tanto, mas o conjunto estava bem bom. Acompanhava um tinto catalão do Priorat bem encorpado que ficou melhor ainda depois de cinco minutos na taça.

Para finalizar duas sobremesas com sorvete. A primeira, um creme de ovos moles com sorvete de canela delicioso. A segunda, que não consegui provar por pura falta de espaço, era uma tortinha de pêra com sorvete de iogurte. Simples, saborosas e bem feitas, foram acompanhadas por um branco de sobremesa chileno. Destaque para o sorvete de canela.
Eu, que ainda tinha que voltar para o trabalho, arrematei com dois cafés e uma trufa. Mas alguns mais afortunados ainda ficaram tomando um Porto.
Desnecessário dizer que as quase quatro horas que passei comendo, bebendo e principalmente conversando sobre comida com esses companheiros foram ótimas. Quase todos os pratos tinham sido criados especialmente para aquele dia, o que dá um caráter muito exclusivo, e cada um foi apresentado pela anfitriã e pelo sommelier dando ainda um toque didático ao evento.
Está certo que não é uma experiência de vida, que mês que vem tem mais e no outro também, mas é sem dúvida uma experiência única já que aquela combinação de pessoas, comida, vinhos e principalmente o ambiente que é criado por isso tudo nunca vai se repetir. Mas talvez o melhor seja que tanto para mim, como para a maioria dos Companheiros da Boa Mesa, é uma experiência única que por isso mesmo pode ser “repetida” sempre. Pelo menos eles fazem isso há 25 anos.

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