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10.8.06

Dois livros

Apesar de ser mais conhecido pela sua junk-fast-food, os EUA têm uma enorme tradição de ótima gastronomia. Alguns dos melhores restaurantes do mundo estão lá, seja na sua versão original ou com filiais. Cidades como Nova York, Chicago e São Francisco são conhecidas pela sua variedade e inovação na cozinha. Além disso, o país possui um importante legado em comidas regionais muito valorizadas por lá mas que desconhecemos por aqui. Por isso não é de se estranhar que a tradição da crítica gastronômica, que é muito diferente da crítica de restaurantes, tenha grande espaço na mídia e conseqüentemente tenha criado seus ícones. Pelo menos dois deles, dos grandes, tiveram livros lançados aqui, Ruth Reichl e Jeffrey Steingarten. A primeira já trabalhou no New York Times e hoje é editora da revista Gourmet, talvez uma das mais importantes da área no mundo, enquanto o outro, depois de abandonar a advocacia, publica seus ensaios e crônicas na Vogue americana. Ambas curiosamente da mesma editora.

Aqui a Objetiva não perdeu tempo e lançou de uma vez só três livros da Ruth Reichl; Alhos e Safiras, A Parte Mais Tenra e, não ria, Conforte-me com Maçãs. Apesar dos péssimos títulos acabei comprando o último pela resenha na quarta capa. Nele, Reichl conta como foram seus primeiros anos como crítica de comida na Califórnia, suas viagens, sabores, pratos, restaurantes bacanas e, onde achei que o livro escorrega, um pouco demais da sua vida pessoal, marido, amantes, amigos e tudo o que a cercava. Se foi sua intenção mostrar que uma crítica gastronômica pode ser uma pessoa normal que tem problemas e dilemas comuns e uma vida fora de cozinhas e restaurantes ela conseguiu, mas pelo menos por aqui ela não é essa celebridade toda para que a gente queira saber como aquele cara que a pegou na escada e a levou prá cama era bom nisso. Descontando essas passagens íntimas demais, o livro mostra o aprendizado de uma crítica descobrindo não só ingredientes, sabores e pratos, mas também como colocá-los de forma atraente para o leitor. Por ser também uma boa cozinheira, trabalhava em um restaurante comunitário em Berkley, há várias boas receitas descritas da forma tradicional com quantidades e passo-a-passo do preparo. Do restaurante ao lado da sua casa ao mais popular da China e o mais chique de Paris, ela esteve nas melhores mesas do mundo e desfrutou bastante disso.

O outro americano teve dois de seus livros lançados aqui pela Companhia das Letras. O Homem que Comeu de Tudo e Deve Ter Sido Alguma Coisa que Eu Comi – já deu para perceber uma diferença nos títulos, não é? Jeffrey Steingarten têm um foco muito bem definido: Comidas. Exóticas, populares, simples, fáceis ou difíceis, o cara comeu mesmo de tudo, e muito. Seu texto tem um humor fino e ácido, quase afetado. A forma prática e objetiva com que descreve o que come, não impede que sabores e ambientes sejam perfeitamente percebidos. Ele viaja pelo mundo às vezes procurando alguma coisa que muito pouca gente comeu, outras atrás de pratos tradicionais lá na sua origem. Faz experiências com dietas, freqüenta praças de alimentação, fast-foods, concursos e festivais de comida, sai atrás de trufas em Alba e de sorvete na Sicília. Faz pouquíssimas referências a restaurantes ou chefs famosos. O negócio dele é a comida. Mas o melhor é quando ele se propõe a reproduzir em casa receitas e pratos que come por aí. É quando expõe leu lado cozinheiro com método, paciência e jogo de cintura. E é como nós, às vezes da certo, às vezes não.

Fazendo um paralelo com os dois livros, diria que a Ruth Reichl está mais para uma das heroínas dos livros do Sidney Sheldon, inclusive o formato que ela escolheu é mais próximo de um romance do que de um ensaio ou crônica. Já o crítico da Vogue é como o Indiana Jones, com um estilo de texto e de crítica mais ágil e desbravador. De semelhança somente que os dois livros têm maçãs na capa.

Mas acho que no final das contas são dois ótimos livros sobre comer e comida que mostram pontos de vista completamente diferentes ao mesmo tempo em que apresentam para quem gosta do assunto, um pedaço da infinidade de sabores, preparações e ingredientes que esse trabalho chato e sem graça deles os obriga a provar. Inveja, eu? Que isso!
PS: Na edição de Agosto da Vogue americana que está nas bancas, Steingarten escreve do Rio de Janeiro e delira com nossa caipirinha. Êta vidinha.....

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2 Comments:

Blogger CrissMyAss said...

Oi!
Vi teu comentário lá no Pisando em Uvas, assim foi como vim parar aqui. Gostei.
Sobre o tamanho dos menus, num post anterior: quando o menu é grande (com muitoas pratos digo), eu sempre desconfio.

Me fez lembrar de um post de um blogue que eu adoro, o www.carnecrua.com , que é assim:

"PELA COMIDA TOSCA E SIMPLES"
"se você se deparar com um cardápio que tenha termos como:
'nossos'
divertidos
tenros
deliciosos
crocantes por fora macios por dentro
suculento
um clássico
uma receita especial trazida de NY
imperdíveis
deliciosos sabores
uma combinação especial
exótica combinação
básico
uma nota de...
generoso
iguais aos da vovó
um dos nossos segredos de família
especial
exclusivo
...e mais três, relembrados pelo deco:
puxado no...
com redução de ...
com coulis de ...

fuja desse lugar. é fria.
esse tipo de cardápio deve ser queimado em fogo lento junto com a generosa pessoa que elaborou a suculenta, prolixa, nem tão exclusiva, mas por fora crocante aberração."

um abraço!

10/8/06 19:45  
Blogger Fugu F. said...

Adorei o blog! E sou fã da Ruth Reichel. Sim ela romanceia um bocado a gastronomia mas justamente por isso descreve sensações como ninguém. Afinal, o despertar de sensações provocado por um prato está sempre ligado a emoções, afetos, associações amorosas. Para mim, comida boa é a que surpreende meus sentidos. E isso é impossível se tocar apenas minha boca.

18/8/06 01:44  

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