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22.9.07

I, de iguaria





Inversamente ao que aconteceu com Gula, quando não concordei com nenhuma das definições que nossos mestres oferecem em seus dicionários, Iguaria, talvez por ser algo assim mais palpável, ou no caso, palatável, é descrita pelo Aurélio quase como eu definiria, veja bem:
Iguaria: comida fina, delicada e/ou apetitosa; acepipe.
Claro que o paladar menos literário do Bistrô se identifica mais com a parte “apetitosa” do que com “comida fina” ou ainda “delicada” da definição.
Aqui para nós, iguaria pode ser literalmente qualquer coisa comestível. De uma folha de alface crocante – menos Paco, menos – àquela caneleé que só tem numa confeitaria em Paris depois da seis da tarde no inverno. Basta (como se fosse pouco) que seja única, preciosa e quase inalcançável. O que já é um quitute se torna uma iguaria quando tem lá seu quê de difícil, e não pode ser encontrada assim todo dia na esquina de casa. Por isso, um prato comum aqui pode ser uma iguaria em outras culturas e vice-versa. Conseqüentemente, acho que a distância potencializa o valor de uma boa comida e ajuda a transformá-la em iguaria. Então é justo afirmar que ninguém produz uma iguaria, ela se torna uma dependendo de fatores tão diferentes como sabor e distância, além do tamanho.
Quando penso em iguaria, imagino que posso comê-la quase de uma vez só ou no máximo em duas ou três colheradas. Quase um bocado. Indo ainda mais longe, tempo também ajuda a definir o que é uma iguaria. Seu sabor tem que ter prazo de validade na boca, mas não na memória. Não se passa horas comendo uma iguaria, por mais que você enrole para aproveitar, iguaria parece ser mais uma questão de minutos.
Também sou quase capaz de afirmar que o momento faz a iguaria. Quando hoje você morde um naco de um leitãozinho a pururuca, classifica aquilo como iguaria e tem vontade de beijar as mãos da cozinheira, amanhã pode ser “apenas” um prato maravilhoso.
Sabor, tempo, distância, momento e tamanho. Dá para sentir que, mesmo podendo ser qualquer coisa, não é fácil se tornar uma iguaria embora nessa área também existam as celebridades.
Iguarias mundialmente famosas são as trufas de Alba, os ninhos de andorinha chineses, foie gras do Périgord, toro e fugu japoneses, pecebres galegos, lagostas do Maine e caviar russo entre tantas outras. Todas idolatradas por gourmets do mundo inteiro que movem mundos e fundos para degustá-las.
Mas uma iguaria é definitivamente um fato cultural, e como esse é um assunto bem amplo, posso dizer que de um bairro a um país, iguarias podem representar muito bem traços da cultura de uma região. Para alguns, o cabrito do Nova Capela é uma iguaria e típica da Lapa, já o bolo de rolo, que a gente come aqui em fatias quase translúcidas para durar mais, é uma iguaria finíssima que os amigos trazem de Pernambuco de vez em quando. E quantas vezes eu levei farinha de mandioca para fazer farofa na Espanha! Farofa é iguaria.
Outro exemplo de iguaria que já citei no Bistrô são os calçots. Eles reúnem todos os requisitos que falei aqui: só existem lá na Catalunha, come-se inteiro de uma vez só, o momento é de confraternização geral - ninguém come calçots sozinho – e o sabor é inesquecível. Mas ao contrário do que defini como iguaria, dá para se empanturrar dele, mas é só uma vez por ano. Iguaria perfeita.

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5 Comments:

Anonymous PF said...

Sem sombra de dúvida, calçots é uma tremenda iguaria. Que saudades!!!!!

Das outras citadas no artigo, só experimentei até agora sopa de ninho de andorinha em um restaurante famoso do Chinatown em NY. Pelo que me lembro achei um treco bem ruim...

Abraço,
PF

23/9/07 01:45  
Blogger Roberta said...

É uma palavra que eu tenho algum pudor de usar, acho meio pretensiosa... sei lá. Mas sua definição é muito boa, me libera um pouco. Tá vendo? Muito útil esse seu dicionário.
beijo!

23/9/07 11:42  
Blogger Paco Torras said...

Acho que esse ABC está mais para enlouquecedor do que para esclarecedor, né não?

25/9/07 11:33  
Blogger Diego said...

Olá Paco.

Descobri seu blog hoje e adorei. Li por algumas dezenas de minutos sem parar.

Texto divertido, conteúdo interessante e variedade de posts e assuntos na medida. Simplesmente demais! Parabéns!

Eu, que me aventuro num blog também, fico feliz quando acho um blog desses. Já favoritei por aqui e vou linkar no Destemperados logo mais.

Aliás, passe lá pra conhecer depois
www.destemperados.com

Um abraço
Diego

26/9/07 18:19  
Blogger Diogo said...

Putz, o Diego me falou e fui obrigado a vir aqui ver se não era exagero dele. E não é que o cara tava cheio da razão?!

Demais o blog, parabéns!

Abração

27/9/07 02:34  

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