A Chef e o chato
Não dá para negar que a vida moderna nos tirou certos prazeres.Talvez um dos maiores era receber dos amigos pelo correio cartas e cartões daqueles de papel com selos e carimbos, lembra? Mas ao mesmo tempo em que esse prazer praticamente acabou, a mesma vida moderna traz agora pelo mesmo correio outras coisa tão interessantes quanto: livros do Submarino, Amazon e dessas livrarias virtuais todas. Você vai ao site, escolhe o livro, vê a capa, lê a resenha e às vezes até um pedaço do texto, clica em comprar, senta e espera chegar. Só não é melhor do que fazer isso na livraria de verdade, mas tem muitas vantagens. Não é ótimo chegar em casa e ter um pacote com aquele livro te esperando? É tão bom quanto uma carta.
Da última vez que fiz isso, chegou um pacote com dois.
Um era o do francês François Simon, apresentado como o crítico gastronômico mais temido da França. Comprei seu último livro, Comer é um Sentimento, querendo descobrir porque ele tem essa fama. Pensei que ia encontrar textos cheios de verve e crítica dos melhores restaurantes e chefs franceses, mas fui enganado. O livro é uma coleção de Lições (assim mesmo com maíscula), que estão até numeradas e seguem uma ordem lógica, começando por “Olhe-se” passando por “Abra os ouvidos” e indo até “Acolha a doçura”. O livro é chato. Em nenhum momento Simon mostra qualquer motivo nem atitude para que os chefs franceses tenham medo dele. Ao contrário, tem um texto doce, quase afetado, e que parece estar falando para crianças. Não gostei. Confesso que a partir de certo ponto fui pulando páginas atrás de alguma coisa que prendesse minha atenção, mas nem as poucas receita perdidas pelo livro são atraentes. Se eu fosse o bonequinho da crítica de cinema do O Globo, estaria dormindo na poltrona.
Já o outro livro do pacote não precisou de três páginas para me prender. Ele é a versão encadernada daquele tipo de cardápio em que você fica na dúvida do que escolher porque tudo é bom. Carlota - Balaio de Sabores da Carla Pernambuco é um livro de receitas com ótimo texto e excelentes fotos. Dividido em doze capítulos, Carlota começa mostrando os pratos que fazem sucesso nos seus restaurantes, continua com diversos pratos brasileiros simples como picadinho e cocada, passa por comidas do mundo, exóticas, de regime, responsáveis e rápidas e termina com sobremesas, caldos e molhos. Às vezes parece que ela abusa dando receitas de bife a cavalo, farofa e bolo formigueiro, mas o livro é todo tão coerente que fica perfeito. Em cinco minutos tornou-se o meu livro de receitas favorito da vez. Recomendo com veemência tanto para quem já sabe cozinhar como para quem quer começar por cima.Apesar de toda modernidade da compra virtual, quando o livro da Carlota chegou pelo correio, foi como receber uma carta daquele amigo de infância que está morando longe e quer dividir as novidades com você. Quase como nos velhos tempos.
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3 Comments:
Sim, Paco!
Pacotes de livrinhos que estamos loucos para ler suprem a correspondência afetiva. Melhor que isso, só qdo alguém compra o livro pensando em você...
Bjos
Andrea
A mesma nostalgia q eu tenho de receber cartas e a mesma alegria de receber um pacote pelo correio, impagável!
Que coisa mais cafona estes títulos do François Simon. "Comer é um sentimento" já diz tudo. Não é gozação, é sério? Que horror!
Vou comprar agora o da Carlota, tô convencida. Vc conhece o dela pra crianças, o "Juju na Cozinha de Carlota"? Uma graça!
Imagino que você esteja coberto de razão com relação ao livro do François Simon. Eu o tinha comprado, juntamente com a Nova fisiologia do gosto, de Jean Marie Amat e Jean Didier Vincent. Os dois são da Editora Senac. Comecei a leitura pela NFG. O livro é tão gritantemente ruim, tão amador do ponto de vista editorial (texto original confuso, tradução lamentável e conteúdo tosco) que devolvi o segundo sem nem sequer abrir. Foi a primeira vez na vida que fui a uma livraria para devolver um livro. Esta coleção do SENAC parece ser, toda ela, um equívoco lamentável.
Ah! Salva-se o capista (hoje chamado de graphic designer). Como dizia minha avó: por fora, bela viola ... rsrsrs
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