Vinhaços

Não é à toa que o mercado de vinhos é um mundo paralelo, uma outra dimensão. Enquanto um jantar num dos melhores restaurantes do mundo, feito por um chef prá lá de reconhecido, premiado, testado, resenhado e principalmente provado sai por volta de US$ 500, há vinhos com quase cem anos, sem garantia nenhuma de que estejam vivos, valendo mais de US$ 100.000 a garrafa e com fila de gente atrás dela.
Foi o que aconteceu em outubro num leilão em Nova York, onde garrafas magnum de Romanée Conti 1919 saíram por US$ 101.575 cada uma e o lote de meia dúzia de Roumiers Bonnes Mares 1923 foi arrematado por US$ 113.525! Olhando assim, o que esses caras estão comprando é quase um bilhete engarrafado de uma loteria que só vai correr quando a garrafa for aberta. Por isso, nesse mercado não só o vinho vale muito, mas seu histórico também. Quem produziu, quem comprou, quem guardou, quem vendeu e principalmente quem já bebeu.
Imagine a cena: o comprador da meia dúzia de Bonnes Mares entra no melhor restaurante de NY com duas dessas garrafas “de baixo do braço” pronto para abri-las ao lado de um prato que faça jus à bebida. O sommelier, que raramente na vida tem oportunidade de colocar as mãos num vinho daqueles, prepara tudo para que a experiência seja perfeita e quando abre a primeira garrafa....nada, nem a cor se salva. A expectativa cresce para a segunda garrafa, que infelizmente também não está boa. O que fazer com aquelas outras quatro na adega de casa? Vender rápido, diriam os mortais. Mas na certa, alguém que compra vinhos nesse nível já deve ter tido várias experiências assim e deve ter tantos bilhetes de loteria na adega de casa que sabe que esta é uma das regras do jogo.
Aqui no meu mundo real, imagino que esses caras quando arrematam um vinhaço desses devem estar querendo na verdade comprar uma memória, a lembrança de um sabor e de um momento inesquecíveis depois que terminam a garrafa. Alguns deles talvez bebam sozinhos, não deixando que nenhum fator externo atrapalhe, outros ao contrário, compartilham com os amigos e complementam o vinho até com alguma comida. Outros ainda devem morrer esperando pelo momento certo de abrir uma garrafa.
Se eu fosse um desses fanáticos, com certeza seria como o vendedor desses vinhos que citei no início. Ele está vendendo porque quer passar a colecionar para beber, não para guardar. Por isso está trocando parte da sua adega pelos vinhos que melhores momentos lhe trouxeram, seja abrindo uma garrafa sozinho no escuro da adega, seja em uma celebração qualquer que, como qualquer celebração, sempre merece que se abra um bom vinho para ajudar a ser lembrada. E isso, não tem preço.

Comentários

Roberta Malta disse…
Não tem mesmo! Pra todas as outras coisas existe mastercard.

Vc já viu o Guia de Vinhos Larousse, do Manoel Beato? É bem interessante. Ele classifica vinhos a partir de R$ 26,00, com cotações de bom a excepcional. E é bacana q nem sempre os mais caros tem melhor cotação. Além disso, dá uma geral no mundo dos vinhos ensinando um pouco a como escolhê-lo, harmonizá-lo, qual o copo ideal, etc. Bom para leigos e interessados no assunto.
beijo.

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