O chinês do Batista

O convite irrecusável do meu sogro tinha como objetivo principal provar o famoso pato laqueado da casa, mas acabamos fazendo bem mais do que isso.
De fora o Mr. Lam já impressiona, mas as enormes janelas viradas para a Lagoa são muito mais bacanas vistas de dentro. O salão principal com pé direito duplo, cores sóbrias, balcão de acrílico vermelho e grandes luminárias de fitas de cetim colorido consegue ser elegante sem ostentar. Não há como sentar mal, de um lado você tem a vista do belo e amplo salão, do outro a Lagoa iluminada.
Os eficientes e simpáticos garçons conhecem bem os pratos e além disso têm sempre um historinha para contar sobre os chineses importados na cozinha e a experiência em conviver e trabalhar com eles. Aqui cabe um parêntese: isso de ter chinês de verdade na cozinha é velho, mas o Rio estava tão carente de restaurantes chineses que a gente esqueceu que quase todos os que já existiram aqui, como aquele em um sobrado na esquina da Bolívar, tinham chineses originais na cozinha. Nesse de Copacabana me lembro que o maitre também era chinês e mal falava português, a gente apontava o prato no cardápio.
No menu do Mr. Lam não vi arroz colorido nem barbatana de tubarão – figuras fáceis nos antigos chineses - mas os pratos em geral são aqueles familiares ao lado de várias criações, releituras e novidades.
Como éramos quatro, optamos pelo menu degustação que inclui o pato laqueado. Há outros dois menus desse tipo, e para quem quiser dar uma geral nos pratos da casa são as melhores opções.
O repasto começa com rolinhos de alface recheados de frango bem temperado, molho de soja com açúcar mascavo e uma couve cortada fininha, temperada e frita de um maneira que fica muito crocante e com sabor de alga. Detalhe: o rolinho é montado com as mãos por nós mesmos, o que além de inesperado em restaurantes desse nível, é ótimo para quebrar o gelo. Depois chegaram dumplings vegetarianos e de camarão com carne de porco, o Chicken Satay, espetinhos de frango tingidos de vermelho e cobertos com um molho cremoso e suave - que segundo a lenda é a razão da existência do Mr. Lam no Rio - e os rolinhos primavera de legumes que não podem faltar em nenhum chinês. Tudo muito bom.
A seguir comemos três pratos mais encorpados: os camarões Mr. Batista, grandes, levemente empanados e com molho apimentado, um filé mignon sensacional, Ma Mignon Mr. Lam, macio por dentro e crocante de verdade por fora e um frango picante em cubos. Para mim os destaques foram os rolinhos de alface que, confesso, antes de provar não levava nenhuma fé, os camarões do dono e o filé do chef.
Então, pouco antes das onze da noite, a música e o serviço foram interrompidos para uma demonstração. Um dos chineses importados se coloca com um bolo de massa branca na frente de uma mesa no centro do salão para fazer noodles sem nenhum outro equipamento a não ser as próprias mãos. Ele vai dobrando, enrolando e esticando a massa várias vezes em rolos cada vez menores até que, como mágica, ela se torna um feixe de fios de macarrão, um pouco mais finos que um linguini, perfeitamente iguais. Todo o salão que estava em silêncio aplaude embasbacado enquanto o maitre leva uma amostra dos noodles em cada mesa para vermos de perto. Espetacular.
Retomamos as atividades com o pato laqueado apresentado na mesa inteiro, brilhante e fumegante que é levado de volta para a cozinha e reaparece fatiado e acompanhado de panquequinhas levíssimas servidas na vaporeira, molho de shoyo com açúcar mascavo e tirinhas de cebola e pepino. Acabamos o menu da mesma forma que começamos, usando as mãos para fazer rolinhos de panquecas recheadas com fatias do pato que é muito saboroso e completamente diferente de um assado tradicional. A casquinha de pele doce e crocante pode não agradar aos mais preocupados com o colesterol, o que não é o meu caso, mas é deliciosa. Quem faz cara feia e não come perde muito. Acompanhando tudo isso um Ducru-Beaucaillou Saint-Julien 1990 espetacular e perfeito para o pato.
Para arrematar, lichia com calda de gengibre, café e chá verde que disseram estar maravilhoso.
Antes de sair subimos para conhecer os outros dois andares da casa, um mezanino e o terraço onde há vista para o Cristo Redentor e Lagoa, e que numa noite fresca é o melhor lugar do restaurante. Na descida ainda fomos visitar a cozinha que parece pequena para o tamanho do restaurante. São uns 50m2 onde devem trabalhar uma dúzia de cozinheiros e ajudantes. O fogão não é nada parecido com algo que eu já tenha visto, são oito bocas gigantes com uma intensidade de fogo impressionante sobre as quais só há woks. Para se ter uma idéia, tem que ser refrigerado a água para não “derreter”.
O menu degustação do Mr. Lam já seria ótimo por si só, mas com o belíssimo ambiente da casa na Lagoa, show dos noodles e ótimo serviço, faz um conjunto como poucos lugares da cidade conseguem. Aliás, parece que como poucos lugares do Brasil, já que na noite do último sábado a casa estava cheia de paulistas. O Sr. Lam e o Sr. Batista estão de parabéns.

Mr. Lam
Rua Maria Angélica, 21 - Lagoa
Tel.: 21 2286.6661
Rio de Janeiro

Comentários

Roberta Malta disse…
Ainda não fui no Mr. Lam, já ouvi falarem bem e mal. A ver.
Mas comi um pato laqueado em Pequim, montando as panquequinhas com as mãos, inesquecível! beijo.
lu froes disse…
Com sogrão bancando, Paco, aí dá para comer e beber..
negocio da china total.
é que lá a carta de vinho, que é feita pelo Boni, é quase uma muralha...
huhuuuuuuu, consegui entrar!!!
Paco Torras disse…
Visitantes ilustres no Bistrô: Roberta é da casa mas sempre surpreende. Essa de comer pato laqueado em Pequim é demais! Lu Fróes é nova por aqui, bem-vinda finalmente!
O sogrão convidou mas não é bobo, levou o vinho de casa...vinhaço.
Anônimo disse…
serviço de utilidade publica...
qual foi a marca do cafe??
bjs,
barisnete
Kats disse…
se eu já estava com vontade de conhecer agora ficou imperdível! não vou perder na minha próxima visita ao Rio. abs, Paco!

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