Jekyll and Hyde

Grant Achatz é o novo menino prodígio da gastronomia americana. Seu restaurante, o Alínea em Chicago, foi eleito o melhor dos EUA em 2006, o que, se não é pouca coisa para qualquer chef veterano, é muito para os 32 anos de Achatz. Por causa disso, ele e suas criações vêm aparecendo em várias revistas de formas bem diferentes.
O Alínea ficou famoso pela sua comida super-hiper-ultra moderna e revolucionária. Pratos como salada de tomate enclausurada num balão de mozzarela de búfala e bacon glaceado servido num pequeno varal, são só alguns exemplos do que Achatz inventa na sua cozinha. Este lado de sua personalidade é o enfoque da pequena matéria e entrevista na revista Gula de fevereiro, que traz também a receita de um creme de batatas com trufas numa apresentação pra lá de equilibrada.
O outro lado do chef foi revelado na Food & Wine de dezembro último. Com um ponto de vista bem diferente, a matéria mostra como ele prepara hoje suas comidas favoritas da infância. Frango assado, bolo de carne e torta de pêras são alguns dos pratos que ele não consegue esquecer e que têm suas receitas de família levemente revisadas pelo agora grande chef.
O paralelo entre as duas reportagens fica ainda mais interessante quando se percebe as influências da cozinha familiar nos pratos do Alínea e vice-versa. No Alínea ele usa dicas ensinadas pela sua mãe quando trabalhavam na cozinha do restaurante da família, e nas releituras das receitas de infância nota-se o sentido apurado de quem agora é capaz de manter a memória do sabor intocada e ao mesmo tempo acrescentar seu toque de gente grande.
Mas duas perguntas eu não consegui responder lendo as matérias: será que os pratos que Achatz faz hoje no seu Alínea vão ficar marcados na memória da mesma forma que a comida da sua infância ficou? E será que ele quer que isso aconteça ou será que ele acha que suas criações têm prazo de validade e daqui a alguns anos serão outros tempos, outros ingredientes, processos, pratos e pessoas e ninguém deve mesmo se lembrar do que ele fez? Para um chef que com apenas 32 anos atingiu o topo, talvez esteja na hora de resolver isso.

Comentários

Juliana disse…
otimo post, paco. eu adoro comida home-style, entao fiquei tentada a tentar me arriscar no bolo de carne.
sobre as perguntas que nao querem calar, eu diria que tem alguma coisa meio hipocritazinha nisso tudo. ele fala e fala e fala da comida da mae, mas faz uma lambanca com o recheio do pierogui. tambem sou pouco conservadora - como ele-, mas a nova nouvelle cuisine ainda nao me ganhou. pra piorar as coisas, passei mal com a comida do adria no final do ano passado.
marcado na memoria, pra mim, so comida de mae mesmo. :)
Juliana disse…
esqueci de comentar que gostei do titulo do post tambem - hehe!
Paco Torras disse…
Juliana, está na hora de vc contar esse seu causo com o Adriá, hein?
Juliana disse…
pois e. qualquer dia desses. ;)
Roberta Malta disse…
É dubio se se pensar que a comida da infância ficou marcada na infância dele, não de outros tb. Pode ser q ele marque poucas pessoas, mas e quantas a mãe dele marcou? 2, 3? Acho ele inteligente, pode ser que marque poucos. Mas marque. E comida de infância tem a ver com repetição tb! Sempre aquela mesma comida, mais fácil de ficar na memória.
Ih, tô viajando...beijo.
Paco Torras disse…
Concordo em parte com a Roberta mas, pelo menos no meu caso, já que lá em casa ninguém cozinhava, tenho a lembrança de pratos que comi em restaurantes e que são meus favoritos até hoje.
loris disse…
em algum momento do passado algo mudou .não sei mais o que é talento ou querer virar celebridade, entre aspas. antigamente, se não estou fazendo confusão, só vencia o talento.
não estou tirando o mérito do Adria, eu o acho uma figura maravilhosa simples e muito estudiosa, querendo dividir o que aprende com todos. não gostei da comida dele, sou muito tradicionalista.acho essas novas invençoes horríveis.Adoro comida que conforta a alma como diz a Nina Horta. Boa comida é bons produtos feitos da maneira mais simples, numa mesa rodeada de bons amigos, um ótimo papo, bons vinhos sem muita griffa, brincadeira minha esta palavra e basta.
beijos loris

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